sábado, 15 de agosto de 2015

Black Sabbath, a origem do Heavy Metal



          Uma das coisas mais interessantes de ser apaixonado por musica, como é  meu caso, é ir além do que está gravado e sendo reproduzido pelos alto falantes. É uma característica dos metaleiros da minha geração tentar juntar o máximo de informações possíveis e debater com os amigos a respeito. Hoje com a internet isso fica mais fácil, mesmo sabendo que muito do que se compartilha na rede é informação incompleta e muitas vezes até mentirosa. Antes saber a origem e o nome de cada integrante de uma banda, onde o album tinha sido gravado e coisas do tipo já era mágico de certa forma. Ter um grande conhecimento a respeito de certas bandas era sinal de status entre seu grupo. Muitos excogitavam bandas bizarras apenas para tirar onda entre os amigos. Recentemente li a biografia do Ozzy Osbourne, "Eu sou Ozzy", e a biografia do Black Sabbath escrita por Mick Wall. Pretendo ler a biografia de Tony Iommi ainda este ano, pois parece ser bem interessante porque, de acordo com os dois livros que acabei de citar, Iommi é o verdadeiro responsável por tudo que o Black Sabbath representa, tendo carregado nas costas toda a glória e todos os fracassos da banda. Hoje quando se vê um Sabbath lançando um ultimo disco, 13, onde termina com os mesmos ruídos que abriram o primeiro disco com trovões e chuva, se esquece que a banda lançou discos medíocres e teve grandes problemas com drogas e diversas formações diferentes. Quando se lê as versões de várias pessoas e se escuta a obra do artista, muitas coisas passam a fazer sentido. Já tenho o hábito de ler revistas direcionadas a instrumentos e a produção musical para ter informações mais técnicas sobre a sonoridade dos álbuns e a performance dos músicos, é uma leitura complementar, além de ser um hábito muito benéfico intelectualmente, ainda é uma fonte que possibilita uma apreciação diferenciada. Tenho a sorte de tocar guitarra e baixo, portanto posso saborear de diversas formas as composições e a sonoridade das bandas que eu adoro e respeito.
          Vou resumir a história do Black Sabbath nesta postagem tendo como base minhas impressões a respeito da banda depois que li as biografias citadas, revi documentários, escutei novamente todos os álbuns e pesquisei outras fontes relacionadas a banda. Tudo isso pelo simples prazer de apreciar o trabalho deles. Saber que essas pessoas as quais admirei durante todos estes anos são de carne e ossos como eu e estão sujeitos a tudo que eventualmente pode ocorrer com qualquer um, dá certo alivio e aumenta ainda mais a admiração que tenho por eles. Engraçado, mas guardadas as devidas proporções, também tive problemas para formar bandas, relacionamentos conturbados com outros músicos e o fato de culturalmente no Brasil o musico ser desprezado, inclusive e principalmente pela família, tive que levar uma vida profissional paralela em outras áreas para garantir o sustento e o pouco que acumulei nestes anos. 
          Destaco o Black Sabbath por diversos motivos. O termo Heavy Metal foi usado pela primeira vez quando um jornalista o utilizou para desdenhar o trabalho do grupo. A banda serviu de base para 90% dos grupos que surgiram depois. Mais de 40 anos após o lançamento de seu primeiro disco consegue lançar mais um álbum e fazer uma turnê mundial. Claro que reconheço a existência de bandas e músicos anteriores ao Sabbath que também tinham uma veia metálica em suas sonoridades, mas a banda de Tony Iommi e companhia foi a síntese do estilo, e para mim, de forma definitiva.  Então vamos a história.
          Quando os integrantes do Black Sabbath começaram a enveredar para o lado artístico a Inglaterra, assim como toda a Europa, ainda vivia a crise do pós guerra. Birmingham era um lugar pobre e muito hostil, conforme relatos dos próprios integrantes da banda. Enquanto Ozzy vivia com seus pais que trabalhavam na industria dia e noite para garantir o sustento da família, o mesmo tinha problemas na escola que se agravaram durante sua adolescência. Trabalhou afinando buzinas na empresa em que sua mãe trabalhava. Teve como atividade trabalhar num matadouro abatendo gado. Um belo dia decidiu-se pela música, não sem antes ter sido preso ao tentar roubar uma loja. Seu pai comprou um sistema de PA e ele pôs um anuncio numa loja procurando músicos para formar uma banda. Isso atraiu Geezer Butler com quem passou a tocar. Nesse meio tempo, Tony Iommi já era conhecido por ter guitarra e tocar em algumas bandas. Nessa fase conheceu o baterista Bill Ward. Para Tony as coisas não foram fáceis. Na fábrica em que trabalhava foi vitima de um acidente com uma máquina que decepou a ponta de dois de seus dedos. Isso ocorreu no seu ultimo dia de trabalho no local ao substituir um colega que havia faltado numa etapa anterior a dele na produção.
          A banda de Ozzy e Geezer não evoluía, pois os músicos não eram as pessoas certas para o trabalho e isso era frustrante. Chegavam a passar horas bebendo e improvisando covers de Blues e Jazz. Com muito esforço e persistência o guitarrista improvisou próteses para seus dedos e aos poucos voltou a tocar, mesmo com a indicação médica que isso seria impossível e que ele deveria se contentar em exercer outra atividade. Talvez nesse período o guitarrista tenho construído toda a armadura que o permitiu seguir em frente durante mais de 40 anos sem ser derrubado. Mesmo com as dores e as dificuldades, foi desenvolvendo um estilo próprio e em nenhum momento o fato de não ter a ponta dos dedos anelar e médio foi motivo de pena ou receio de qualquer pessoa em relação a sua musicalidade. O que mudou a história da musica aconteceu ao verem o anuncio de Ozzy na loja, ele e Bill ficaram curiosos e então lembrou-se do menino da escola que conhecera algum tempo antes chamado Ozzy. Pensou que não poderia se tratar da mesma pessoa, pois aquele cara nem cantava, muito pelo contrário, era um idiota que ficava fazendo palhaçadas para escapar das encrencas. Ao ir até a casa de Ozzy acompanhado de Bill, suas suspeitas foram confirmadas. Mesmo com a decepção, Tony foi convencido por Bill a dar uma chance, afinal as coisas não estavam nada boas. Ozzy sugeriu seu amigo Geezer para completar a banda. Alguns músicos acompanharam o lendário quarteto que focavam em tocar jazz e blues em diversos lugares. Costumavam encostar uma van com seus equipamentos em frente aos locais onde sabiam que alguma banda mais conhecida iria tocar. Caso acontecesse algum problema eles estavam prontos para assumir e salvar a noite. Numa dessas oportunidades o Jethro Tull teve problemas e a banda assumiu o lugar da banda que já era bem conhecida. No meio do show viram Ian Anderson na platéia que foi justificar-se, eles não poderiam fazer o show porque estavam com problemas no ônibus que transportava a banda e os equipamentos. O líder do Jethro Tull gostou do que viu e posteriormente chamou Tony Iommi para sua banda.
          Esse foi um ponto crucial na história da banda. Com Tony fora após a banda ter feito alguns shows e conseguir juntar algum público, Ozzy, Geezer e Bill ficaram bebendo e conjecturando um futuro negro para eles. O sentimento era de que o sonho tinha acabado antes mesmo de alguma coisa mais séria acontecer. Para quem tem banda e tem que conviver com a saída de um integrante é sempre dificil, imagine para o Black Sabbath que girava em torno das ideias e o talento de seu guitarrista. Já haviam passado diversos músicos e os três já tinham tocado em outras bandas, mas sem Tony e sua van caindo aos pedaços os três estavam abandonados a própria sorte e essa era péssima. Para Tony Iommi aquilo era a realização pessoal, pois tinham decretado o fim de sua carreira como musico quando teve o acidente na fábrica. Agora estava ali para tocar com uma banda conhecida e em um evento que tinha ninguém menos do que Rolling Stones promovendo. Entretanto, pouco tempo depois o guitarrista volta para a banda. Não lhe agradou ser um musico de apoio, mesmo não sendo a banda de seus sonhos, aqueles três caras que havia deixado para trás, eram a base que ele precisava para seguir em frente. Desde então deixou claro de como as coisas funcionariam. Tendo grande influência sobre os três, suas condições nunca seriam questionadas, afinal, Ozzy, Geezer e Bill estavam aliviados, suas carreiras e sua banda estavam salvas. O impacto da volta de Tony a banda acelerou o processo para a gravação do primeiro álbum.
          Após gravar um single como Earth, descobriram que havia outra banda com esse nome. Geezer sugeriu Black Sabbath, tirado do filme de terror. Outra coisa que chamou a atenção da banda era como o cinema enchia quando passava algum filme do gênero. Decidiram fazer musica para assustar, já que não faziam muito sucesso entre as mulheres mesmo. Geezer começou a escrever aquelas letras que falavam de demônios e magia negra inspirado nos livros que lia. Tony Iommi tirava os riffs que se tornariam clássicos de sua guitarra. Assim nasceu Black Sabbath, N.I.B, The Wizard e a coisa não parou mais. Não tardaram a gravar o primeiro disco que foi lançado em uma sexta-feira 13 de fevereiro de 1970. Assim nascia a primeira e mais influente banda de Heavy Metal.
           Quando se ouve o primeiro álbum, se lê as declarações das pessoas envolvidas, vê videos da época, corre atrás de informações a respeito de todo o contexto, passasse a entender a sonoridade da banda, o que aquilo representa e o mais importante, faz com que tenhamos consciência de que as coisas não são fáceis pra nossos ídolos também. Imagine o guitarrista perder seus dedos, ter que trabalhar como escravo praticamente em empregos insalubres e ganhar uma miséria para se sustentar. Imagine investir na musica sem se ter a minima ideia do que pode acontecer e ainda se deparar com um monte de gente do mercado musical bombardeando a banda de diversas formas. Pois tudo isso aconteceu com o Black Sabbath e acontece com um monte de gente o tempo todo. Por hoje fico por aqui, em breve sigo contando mais a respeito desses caras e de outras bandas que julgo relevantes para compartilhar com todos.
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