terça-feira, 27 de outubro de 2015

Entrevista com Régis tadeu

Em junho deste ano escrevi um texto sobre o Régis Tadeu ( leia aqui ). Nesse mês aproveitei para bater um papo via Skype. Entrei em contato e ele aceitou gentilmente abrir um espaço para bater um papo sobre seu inicio de carreira, mercado da musica, entre outras coisas. Confiram.
RT: _Bom dia, seu Paulo!
PR: _E ai, seu Régis?
RT: _Tudo bem ai?
PR: _Tudo tranquilo. E por ai?
RT: _Tudo joia, também.
PR: _Então, vamos direto ao assunto, cara? Quero saber de ti o seguinte: Como um cara que estudou com o Edgar Scandurra e com o Nasi( sim, guitarrista e vocalista sucessivamente do Ira) e que teve um show cancelado pelo pai, virou dentista e depois voltou a trabalhar com musica, tornando-se critico musical?
RT: _É. Na verdade a gente (Edgar Scandurra, Nasi e Régis Tadeu) tinha uma banda chamada Subúrbio e tocava em alguns bares na noite e não sei o que. E meu pai era militar né? Era extremamente de direita. E um dia meu ele foi assistir a um show da gente e ficou absolutamente espantado com a quantidade de maconheiros que tinha na platéia. E ai eu tinha, o quê, acho que eu tinha dezesseis ou dezessete anos. Meu pai falou: Meu, nem a pau que você vai continuar tocando no meio desses maconheiros. Imagina, para um militar, era o fim da picada naqueles tempos, né cara? Nós estamos falando de 1977/78.  Mas enfim. Bom, e ai, o engraçado é que eu acabei deixando os caras, parando de tocar com a banda por um tempo e depois eu voltei pra tocar com uma outra banda, só que ai era uma banda de Heavy Metal, né?
PR: _Ahãm!
RT: _Quer dizer. Então, na verdade eu nunca parei de tocar. E eu sempre gostei muito de odontologia. Entrei na faculdade e tal. Mas mesmo durante a faculdade eu não parei de tocar. Eu tocava em bandas, Anarca, um monte de bandas. E ai, eu me formei, comecei a trabalhar em consultório e tal, aquela coisa toda. E ai, num belo dia um amigo de uma namorada minha me convidou para escrever para uma revista de cifras e tablaturas chamada Cover Guitarra. Ele queria colocar algumas matérias, algumas criticas de discos. E como ele sabia que eu tinha muitos discos, isso já em 1994, eu acabei escrevendo, e ai foi uma bola de neve né cara? Ai eu virei repórter, isso paralelamente ao exercício da profissão de dentista.
PR: _Sim.
RT: _Ai eu virei repórter. De repórter eu virei editor. De editor eu virei diretor de redação. Ai como diretor de redação, nós lançamos algumas revistas que acabaram me levando para dar entrevista no Jô Soares na TV. E ai o pessoal de uma outra emissora gostou. Tudo uma bola de neve, bixo. Na minha vida tudo aconteceu assim,  em termos de bola de neve.
PR: _É! Essa é a minha grande curiosidade, na verdade. Eu acompanho teu trabalho desde a Cover Guitarra. Eu tenho a primeira que saiu que era a revista dos Ramones. Depois veio U2.
RT: _Isso!
PR: _Eu tenho uma coleção aqui. Que eu estou agora, com advento de Mercadolivre e coisas assim, comprando de novo essas revistas velhas, porque a gente acaba se desfazendo desse tipo de coisa com o tempo, tem mudanças, casa, separa e dai perde muito, né?  
RT: _Casar é sempre um problema para quem coleciona qualquer coisa.
PR: _Pois é! Aqui, ainda bem que eu tenho espaço, eu coleciono guitarras por exemplo, né, mas... Daí, eu me lembro dessa sua entrevista. Eu cheguei da escola a noite, naquele da teve a entrevista com o Jô. Na época, acho que você estava trabalhando na revista Mosh, né?
RT: _Isso. A gente estava lançando a revista Mosh.
PR: _Isso. Daí foi um papo bem interessante. Falaram sobre seus discos, sobre um monte de coisas. Que tu tomava banho lavando os discos e tal...

RT: _Isso. Exatamente. Na verdade essa entrevista foi o ponto de partida para meu trabalho na televisão. Porque ai o pessoal do Super Pop acabou gostando muito. Na verdade, foi uma das entrevistas mais longas. A produção do programa me falou isso, foi uma das entrevistas mais longas da história do programa, né? Foram vários, dois ou três blocos. E ai o pessoal do Super Pop me chamou para fazer uma participação num debate. E ai eu fiz a participação nesse debate, os caras gostaram pra caramba. Me chamaram para fazer um outro debate no mesmo dia, porque na época o programa era gravado direto, eles gravavam dois programas num dia só. Ai me chamaram para botar naquele quadro onde eu falava mal dos discos, quebrava os CDs e tal. Super divertido. E depois de lá eu fui para o Raul Gil onde eu estou até hoje.
PR: _O Raul Gil eu acompanhei mais na década de 90. E era bem bacana o programa dele. Hoje eu não sei a quantas anda. Eu assisti pouco nos últimos anos. Eu não sei como ele está, porque ele está velho pra caramba, né cara?
RT: _É. Todos nós envelhecemos.
PR: _É. Ele e o Silvio Santos, por favor né, já estão nessa desde o inicio de tudo, praticamente, relacionado a TV. Mas ele era super engajado em revelar bandas, novos artistas, nomes e descobrir talentos.
RT: _Ahãm.
PR: _E hoje é uma coisa muito difícil para o pessoal que trabalha com musica ter espaço na TV. Porque até o Faustão, o Jô Soares, estão demitindo os músicos, né cara?  Isso é muito ruim para a categoria. Não sei qual é a tua opinião sobre isso.
RT: _É. Eu acho que o espaço para musica vem se reduzindo na televisão, muito porque o publico tem um grau de cultura muito baixo, cara? Quanto mais baixo for o perfil da audiência em termos culturais, mais baixo vai ser o nível da programação.
PR: _É. O fim da MTV foi uma prova disso ai, né? Estávamos falando de 1994 anteriormente e a MTV entrou no ar no inicio da década de 90. Então, eu conheci 98% das bandas de Heavy Metal através de programas da MTV como Fúria Metal. Ela foi um veiculo muito forte, trazendo os clipes e as informações do que estava rolando lá fora. Para quem gostava de musica, foi uma febre na década de 1990.
RT: _Ahãm.
PR: _E hoje a gente não tem isso. Até a Cultura não está oferecendo uma alternativa cultural com essa representatividade. Eu li um texto seu falando que a Cultura poderia ser a nova MTV se as pessoas trabalhassem de verdade.
RT: _É. Eu achava isso né. Eu até acho isso ainda, mas precisa ter patrocinadores engajados, né cara, senão isso não vai rolar, definitivamente.
PR: _Concordo. Eu estava conversando com o pessoal na Ordem dos Músicos  aqui do Rio Grande do Sul, que pelo que estou vendo no mercado atual, a musica ao vivo tende a acabar em um curto espaço de tempo. Qual sua opinião sobre isso?
RT: _Na verdade, assim, eu não sei como é ai no sul, mas aqui em São Paulo, por incrível que pareça, você tem espaço para as bandas cover. E ainda assim, são poucos espaços. Na verdade você tem três ou quatro bares só que trabalham com bandas cover. Pra musica autoral é muito raro. Acho que a cada dia que passa as pessoas vão ficar consumindo musicas dentro da suas próprias casas, tá entendendo?
PR: _Sim. Claro.
RT: _Ou você sai para assistir shows de figurões com ingressos cada vez mais caros, ou você vai ficar curtindo musica dentro da sua casa. Infelizmente é o que está se prenunciando ai no horizonte.
PR: _E não é só isso. É um conjunto de coisas: Segurança, por exemplo. Aqui em Porto Alegre está horrível. Imagino que em São Paulo esteja pior ainda. Nos grandes centros, você vai sair a noite e deixar o carro onde? As opções são mínimas. Com o que ocorreu em Santa Maria em 2013 ficou pior ainda para abrir um bar. Tem que molhar a mão de muita gente, pagar um monte de impostos, alvarás, pagar as bandas para manter um espaço que abriga 50 pessoas. É impossível se manter nessas condições. Antes até tinha um pessoal que mantinha bares onde tocavam bandas cover, algumas autorais, mas hoje ficaram só os tradicionais mesmo, e que se mantêm com um orçamento que ninguém sabe exatamente de onde sai.
RT: _É. Eu imagino.
PR: _Fica complicado. Outra coisa que eu gostaria de saber de ti,  embasado na sua experiência na profissão. O Iron Maiden está com álbum novo e tem a perspectiva do Metallica lançar um disco de inéditas, talvez para o ano que vem. Tu achas que essas bandas tem a necessidade de lançar trabalhos novos, já que o pessoal quer mesmo é ouvir os clássicos nos shows, que são o que realmente dá dinheiro? Afinal, os CDs físicos não vendem mais como antes. O que acha sobre isso?
RT: _No caso especifico do Iron Maiden, cara, depende do tipo de contrato que eles tem com a gravadora. Eu não sei quantos discos eles estão devendo, porque quando uma banda grande assim assina um contrato, ele estipula previamente quantos discos a banda vai lançar. No caso especifico do Iron Maiden, assim como no caso especifico do Metallica, eu acho que são bandas que os fãs vão comprar qualquer tipo de coisa que eles lancem, você está entendendo? Eu não vejo muito esse tipo de banda preocupada com quedas nas vendas de discos no mercado. São bandas gigantes. São bandas que possuem mais do que fãs, elas possuem torcedores. Então assim, qualquer coisa que eles lancem, no caso ainda do Iron Maiden é mais emblemático ainda, o que a banda lançar em termos de CDs, camisetas, pôster, chaveiros ou o que quer que seja, vai vender muito. Então essas bandas passam muito ao largo dessa dificuldade de vender discos de hoje em dia.
PR: _Eu acho que no caso do Metallica, que tem menos de 10 álbuns de inéditas em mais de 30 anos de bandas, lançar mais discos com musicas novas parece sem propósito comercial, já que normalmente, eles tem recebido mais criticas do que qualquer outra coisa desde que lançaram o álbum preto. Pra encerrar, o Kiko Loureiro no Megadeth, como você viu isso?
RT: _Eu vi isso como uma aquisição normal de uma banda. Eu não sei porque as pessoas ficaram tão “Oh”, sabe? O Kiko é um excelente guitarrista e tem uma carreira internacional consolidada. Não vi isso como sendo uma aberração. Não, muito pelo contrário. Ele é um cara que tem uma banda com uma carreira consolidada lá fora, que é o Angra. O cara é talentoso e seu passe foi adquirido por uma banda muito conhecida. Já o resultado disso, eu vou esperar sair o disco, vou esperar pra ver os shows, está entendendo? Não vou ficar aqui fazendo qualquer tipo de previsão, tá entendendo? Mas assim, eu vi isso como uma aquisição normal. É que o brasileiro é meio bocó, meio caipira nesse ponto.
PR: _Sim. Exatamente por isso que te queria saber sua opinião. O brasileiro em geral não valoriza. É incrível né? Porque o Sepultura fez uma carreira muito interessante, que chegou a ser comparado ao Metallica nos anos 1990. Mesmo que eles mesmos tenham se boicotado na minha opinião, não tiveram do publico brasileiro o mesmo reconhecimento. Anos depois o Kiko está no Megadeth que é uma banda muito representativa no Heavy Metal.
RT: _É, e você também não sabe exatamente quanto tempo ele vai ficar lá, você tá entendendo? Ele pode ficar lá meses, como pode durar anos. Wherever.
PR: _Régis, agradeço a disponibilidade de seu tempo. Sucesso no seu trabalho ai. Te acompanho direto pelo blog do Yahoo e pelos programas de rádio. Acho seus comentários hilários muitas vezes e suas intervenções tem sido referência. Muito obrigado e sucesso!
RT: _Muito obrigado! Eu que agradeço o contato. Obrigado pela audiência. Um abraço ai. Até mais.
PR: _Grande abraço. 
Infelizmente não pudemos trocar uma idéia sobre muitos outros assuntos, pois precisaria de mais tempo de entrevista, mas o Régis Tadeu escreve semanalmente no seu blog no Yahoo (clique aqui), tem os programas Agente 93 e Rock Brazuca na rádio USP FM, então estão ai os canais para saber mais sobre o trabalho do cara. Eu curto muito a forma como ele escreve seus textos e faz suas criticas, mesmo não concordando com tudo que ele escreve e diz. Também saúdo a iniciativa dele de indicar álbuns de diversos estilos e curiosidades sobre o universo musical. 
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