quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Entrevista com Felipe Lisciel

         
          A primeira entrevista de 2016 foi com o produtor musical Felipe Lisciel (Site Oficial). Para o mainstream Lisciel trabalhou com Detonautas e MV Bill, porém ganhou notoriedade por trabalhar com bandas independentes e postar vídeos no Youtube e Facebook falando de eletrônica no áudio e produção musical de maneira bem humorada, mas com um conteúdo muito interessante. Atualmente ministra cursos on line demonstrando técnicas de mixagem e segue gravando bandas novas que tem o objetivo de se expressar musicalmente. Ele é natural de Belo Horizonte, mas mudou-se para Rio onde executa seus projetos atualmente. Entre eles está a construção de equipamentos valvulados para trabalhos com áudio. Batemos um papo de aproximadamente meia hora via Skype sobre musica, bandas, cursos e o cenário atual. Segue o papo transcrito abaixo com exclusividade para os leitores do heavinna.blogspot.com:
         
          Felipe Lisciel:_E ai?
          Paulo Ramos:_Fala Lisciel! Me ouvindo bem?
          FL: _E ai, bixo? Beleza? Até que enfim conseguimos nos falar.
          PR: _Pois é! Só trocando mensagens no facebook e não encaixavam os horários para trocarmos uma idéia.
          FL: _É mesmo!
          PR: _Cara, vou postar esse nosso bate papo no meu blog. Se depois quiser dar uma conferida, te mando o link assim que fizer a postagem.
          FL: _Ta legal.
          PR: _Eu acompanho seu trabalho desde 2013, quando fiz um curso de produção musical e acabei entrando em contato com seu material on line. 
          FL: _Onde tu fez o curso?
          PR: _Eu fiz aqui em Porto Alegre no Instituto Gaucho de Áudio Profissional (IGAP-RS).
          FL:_Legal!
          PR:É um curso bem básico. É direcionado para home estúdios na verdade. Deu pra conhecer as ferramentas mais usuais como: tipos de microfone, interfaces de áudio, plug ins, algumas técnicas de gravação e mixagem. Ali eu tive contato com teus vídeos no Youtube, pois o pessoal comentava bastante sobre o material que havia on line. Depois acabei assinando a Academia Black que você fez com o Dennis(Zasnicoff) Site Oficial. Cheguei até a fazer o pré-amplificador que você ensinou no curso e tal.
          FL: _Oh, que massa! Você foi um dos poucos então?!
          PR: _Não. A galera até se puxou, eu via pelos comentários que postavam e cheguei a entrar em contato com alguns, mas o lance era mais pra aprender mesmo, conhecer como funciona o sistema.
          FL: _É, por ai mesmo. Doido.
          PR: _Foi uma experiência bem bacana.
          FL: _Legal cara!
          Em 2012 Felipe Lisciel e Dennis Zasnicoff montaram a Academia Black, que era como se fosse uma evolução da Academia do Produtor Musical montada por Dennis que visa mostrar os diversos seguimentos da produção musica em forma de videos. A parceria desenvolveu-se em forma de revista eletrônica, onde encontrava-se videos sobre acústica, eletrônica, técnicas de gravação e mixagem. Além das dicas dos dois produtores rolavam entrevistas com alguns personagens do mercado musical falando de diversos assuntos.
          PR: _Seguinte Lisciel. Tu és mineiro, se não me engano?
          FL: _Sim.
          PR: _Está trabalhando no Rio agora?
          FL: _Estou.
          PR: _E você fazia o que profissionalmente, antes de trabalhar com áudio?
          FL: _É...Eu tinha...Profissionalmente?
          PR: _É.
          FL: _Comecei muito novo, meninão. Entre 13, 14 anos, o pessoal queria que eu tocasse, ai eu dava aulas de guitarra. Gravava minha banda. Profissionalmente, antes disso eu não fazia nada não. Só escutava vinil e ficava bebendo o dia todo com meus amigos.
          PR: _Ficava bebendo e xaropeando os outros?
          FL: _Heheheheheh! Mais ou menos por ai.
          PR: _E como pintou o áudio? Começou a gravar e o negócio rolou? Passou a cobrar pra gravar os malucos que tinham banda na sua região?
          FL: _Pois é. O doido na época é que não existia internet. Não dava pra ir em blog nenhum pra pegar informação de nada. Então se a gente queria gravar, a gente começava a gravar. Só isso. Não tinha nenhuma restrição que a gente tem hoje, né? Primeiro eu bolei um jeito, pois como a gente iria gravar com um gravador de fita e tudo? Então botava dois gravadores, um tocava a guia e no outro a gente ia gravando a coisa, né? Bem precário mesmo. Não tinha redutor de ruídos, então passava três vezes e já ficava insuportável. Então coloquei um computador no meu estúdio. Quer dizer. Peguei o computador lá de casa. Quase ninguém usava ele direito. Em noventa e poucos ninguém usava computador pra quase nada. Noventa e seis, sei lá! Eu trabalhava consertando computadores, coloquei uma placa de som e comecei a gravar. Aí eu fui num show com a minha banda, fomos tocar e eu levei o disco. Ai o cara pergunta: “Onde é que você gravou e coisa e tal?”. Porque antigamente gravar era complicado, né? Hoje não. Hoje qualquer um grava, sacou?
          PR: _Sim. Eu comecei a tocar no inicio da década de noventa. E o primeiro disco gravado totalmente em Pro Tools foi um do Rick Martin, se não me engano, em 1997. 
          FL: _Pô!
          PR: _Meu primeiro registro acho que foi em noventa e dois. E era em fita de rolo mesmo.
          FL: _É.
          PR: _E a gente morria numa grana preta pra fazer um registro que era basicamente ao vivo.
          FL: _É. Custava uma grana mesmo. E você tinha que ser responsa na hora de gravar. Tinha que tocar mesmo.
          PR: _Isso era o barato da coisa.
          FL; _O grande lance era isso mesmo. A maior diferença era essa mesmo.
          PR; _Daí tu montou teu estúdio mesmo, então?
          FL: _Pois é. A gente ficou pulando de casa em casa, né? Com os equipamentos pra lá e pra cá pra ensaiar, enchendo o saco. Quando a mãe de alguém ficava puta a gente ia pra casa de outro. Até que eu parei no porão lá da casa da minha mãe. Não tinha nada construído e tal. Tudo podrão, cheio de mato pra tudo quanto é lado. Eu entrei pra lá e comecei a ensaiar com minha banda. Minha mãe falou que ali realmente o barulho era menor e tal. Bom, daí eu pensei, é aqui que vamos ficar. Então fechamos as paredes e pronto. Montei meu estúdio porão. Isso já era 2006.
          PR: _Pois é. Daí depois você foi para o Rio? Fez faculdade de eletrônica, né?
          FL: _È. Eu sempre mexi com eletrônica e trabalhei em parelelo fazendo projetos de tubulação em casa mesmo. Meu pai levava os projetos pra casa e eu fazia o projeto do projeto. E...Quer dizer, tirava uma mixaria de quebrada. Mas ai entrei para a engenharia civil, com 19 anos, normal. Fiz a engenharia civil e fui trabalhar para um monte de escritórios, engenharia elétrica, um monte de coisas, mas sempre com um estúdio do lado. Aí eu mexia com eletrônica. Mas quando eu fiquei sabendo do curso de eletrônica, eu fiquei maluco, pois lá era o lugar para mim aprender mesmo, né? Aí saí fora da civil e fui pra eletrônica. Foi por isso que agora eu consigo desenvolver os equipamentos. Mas, quando eu vim para o Rio, eu já estava trabalhando como produtor musical em Belo Horizonte.
          PR: _Legal.
          FL: _Eu nunca iria largar o meu estúdio lá para vir pra cá. Vim por causa da minha mulher. Ela arrumou um trabalho aqui na Petrobras e tal. Eu vim forçado. Hehehehe!
          PR: _Heheheheh! Melhor assim. Esse tipo forçação ainda é bom. O pior é ter que se mudar para não passar fome como muita gente acaba fazendo.
          FL: _É. Ainda bem que tenho muita coisa on line, né? Eu consegui levantar uma galera on line na época. Quer dizer, na verdade nunca é de propósito. Acabou que eu entrei no Orkut e comecei a postar coisas. A galera me chamou pra trabalhar em outros estados. Gravei bandas de outros estados, mixei coisas pra outras pessoas e tal. Aí ficou bom. Aí que eu consegui vir para o Rio tranqüilo, né? Continuei gravando bandas em BH. Comecei a gravar bandas aqui no Rio.
          PR: _Pelo que eu acompanhei cronologicamente nos teu vídeos, deu pra notar que se tratava de uma evolução. Ao menos nos vídeos mais antigos me pareceu isso. Parecia que dava um estalo, você aprendia algo, colocava em prática e depois jogava pra fora, compartilhava com a galera. Você chegou a conclusões do tipo: “Ah, é assim que esse compressor funciona.” Partindo daí você foi criando o teu estilo próprio de fazer as coisas?
          FL: _ Eu comecei a fazer os vídeos porque achei animal. Assim, eu nunca fui muito de tecnologia não, sei lá, internet e tal. Eu nunca explorei muito a internet. Mas como eu tinha a conta no Orkut e nem usava direito, só tinha uns amigos. Daí sem querer cai num negócio de home estúdio e via a galera lá cheia de duvidas, uma dificuldade danada. Daí eu comecei a fazer os vídeos. O que eu senti no pessoal que postava lá e nos vídeos era aquela postura com um reizão na barriga, cheio de assuntos técnicos. Mas eu percebi que não esclarecia muito. Então comecei a fazer esses vídeos, mais zoando e tentando passar o máximo de informação. Ai fui quebrando umas coisas, tipo: Vou gravar uma guitarra e botava só um microfone lá e mostrava pro pessoal. Aqui ó, somzão de guitarra que você pode fazer e etc. Falava o que eu estava usando. E foi meio que quebrando aqueles lances que a galera tinha medo de fazer. Como eu comecei gravando de qualquer jeito, a gente acaba gravando sem medo né? Se não tinha amplificador de guitarra, plugava em qualquer caixa que tivesse em casa e colocava um microfone na frente, aumentava o ganho pra distorcer e tal. Ai a gente vai aprendendo a trabalhar dessa forma. É bom mas é ruim. É ruim mas é bom, sacou? Tipo, você acaba ficando sem medo e quebrando com o medo do pessoal também, de pegar e meter a mão pra fazer as coisas. 
          PR: _Faz parte de uma jornada de aprendizado, da tua evolução. Onde você precisa fazer as coisas pra que algo aconteça e você possa evoluir. É como aprender os primeiros riffs de uma musica que você gosta. Você toca e se emociona. Depois vai evoluindo, estudando, tirando novos sons, novas musicas, criando seu próprio trabalho e tocando bastante.
          FL: _Pois é, bem isso mesmo.
          PR: _E os cursos on line, cara? O que você está fazendo agora? Quais são os que estão na rede?
          FL: _Depois que eu fiz o curso com o Dennis, eu meio que aprendi algumas coisas, principalmente de administração. E ai eu criei o meu, que foi o “Cozinhando na Mesa de Som”. Que é um curso de mixagem. Ai eu tenho um de Pro Tools lá, mais pra cobrir um buraco. É pra quem precisa aprender a usar o Pro Tools, tem umas coisas bem direcionadas, pra ser uma aprendizagem bem rápida. Pra quem mudou de programa e ficou perdido. Ai você entra no curso lá, que eu direcionei pra isso ai. O Cozinhando... foi difícil de bolar porque você não sabe se poe coisa boa ou coisa ruim. Ai o cara fala: “Você poe muita coisa de gravação profissional que não é o nosso foco, e não sei o que...”. Quer dizer, na maioria das vezes a galera grava com o que tem, então eu quis abordar no curso gravação foda e gravação ruim pra caralho mesmo, que o cara gravou na casa dele de qualquer jeito. E deixa tudo misturado e aplicando as técnicas pra todo mundo. Foi essa a idéia que eu tive pra fazer este curso. Este curso têm módulos. Daí dá pra fazer o primeiro módulo e depois fazer um segundo com outro tipo de gravação e tal. Podendo ficar só avançando as etapas conforme for evoluindo no aprendizado. Ele aborda a parte analógica também. Eu abordo mesa de som Behringer, Yamaha, Mackie, um monte de mesas acessíveis pra todo mundo, né? Eu mostro lá mexendo mesmo, os cuidados que tem que ter no ganho, o timbre da mesa também, e faço uma analise rápida ali, de ruído e etc. O mínimo que você precisa saber pra trabalhar em cima, né? E é isso.
          PR: _E quais são as bandas que você produziu que ganharam mais notoriedade? Eu sei que fizestes o Detonautas. E chegou a participar de algum trabalho que chegou ao mainstream, algum projeto maior para gravadoras?
          FL: _Cara, eu comecei a ter um contato ali com o mainstream com o Detonautas e nunca tinha tido nenhum contato, totalmente zero com esquema de TV. E foi uma decepção tão grande. Depois eu gravei o MV Bill, que é um rapper mais famoso também. Fiz uns trabalhos com o Mauricio Barros, tecladista do Barão Vermelho. Cara, mas eu parei de mexer com o mainstream. Eu não..., vamos dizer assim, eu não investi mais no mainstream porque é muito ruim, é muito fraco. Você tem que ser fraco. E eu achei muito “paia”, muito paia de mexer com isso e larguei pra lá. Mas foi só isso ai. Só esse contatinho mínimo e já me fez desgostar totalmente deste mundo. Larguei pra lá. Não mexi mais não. Sou muito mais de gravar qualquer banda ai desconhecida e curtir pra caralho o trampo do que fazer coisas pra TV, pra rádio.
          PR: _É, complica mesmo. Ainda mais agora que tudo está muito ruim em diversos aspectos.
          FL: _É. E a tendência é piorar. É tudo em função de audiência e dinheiro. Ninguém ta nem ai se a gravação foi bem captada, se o cara faz algo diferente, isso não é o foco. E o meu foco, o objetivo do meu trabalho é gravar a banda que quer gravar e expressar o trabalho dele em forma de musica. Igual a gente queria lá atrás, igual eu sempre quis a minha vida inteira. Igual eu acho que as bandas que eu escuto fazem, Alice in Chains, Slayer também. Coisas pesadas, mas coisas leves também, como Norah Jones que faz um trabalho bem honesto assim.
          PR: _Só pra pegar o gancho. Qual é o trabalho que tu tem como referencia? Que tu diz assim: “Cara, esse disco soa muito bem. Esse álbum é prazeroso de ouvir porque ele é muito bem produzido”.
          FL: _Doido. Olha cara, acho que o...eu voltei agora a comprar novamente os vinis que eu tinha, porque o estúdio tomou o meu tempo todo, então eu parei de ouvir tudo. Eu não ouvia mais nada, só gravava. Todo dia era uma banda e é muita banda. Ai depois que eu passei pra produção musical eu tive mais tempo. Pegava uma banda pra gravar e ficava um monte de tempo trabalhando em cima dela. E ai agora eu voltei a comprar os LPs que eu tinha quando era moleque, porque a gente sai trocando as coisas, né? E ai bixo, fui meio que lembrar das minhas referencias. E com certeza absoluta, som de bateria pra mim é Faith No More e principalmente Red Hot Chilli Peppers, aquele Blood Sugar Sex Magic que eu tenho em vinil aqui. Então quando põe o vinil aqui em casa, altão numas caixas Gradiente sabe? Cara, ai você escuta o som de bateria e aquilo ali que é o som de verdade, que o cara tirou usando a casa, gravou usando uma casa. E Slayer também, que eu citei, também é uma expressão total ali do ódio. Hehehehehe. Em forma de musica que você consegue sentir com os caras tocando, a bateria tem um som muito natural. Já é uma pegada muito diferente do Red Hot, lógico. Putz. Ai tem Metallica com...
          PR: _O disco preto?
          FL: _Ali mudou muita coisa nas guitarras, no timbre da época. É sempre bom dar uma ouvida ali pra você sacar qual é. In Útero do Nirvana.
          PR: _Eu sempre tive como referencia de produção de qualidade o disco preto do Metallica. Que é um álbum mais equilibrado, com timbres mais bonitos.
          FL: _É animal mesmo. Eles chegaram num nível ali de misturar trigger com som de bateria, tiveram mais cuidado ali, é meio frufru o som, né? Mas é animal.
          PR: _Mas está tudo ali, né?
          FL: _Exatamente! É mais frufru. Eu gosto do Master of Puppets. A sonoridade do Master.... Mas, inegavelmente o som grosso de bateria do Metallica foi quando eles fizeram o ...And Justice for All. Ali tem um somzão casca dura da bateria principalmente. Mas o álbum preto é realmente o brinquinho de princesa dos caras. Depois a banda nunca mais fez um disco, né? Escreve ai no blog que a banda sumiu, nunca mais gravou nada. Hehehehehe. Escreve ai. Hehehehehe.
          PR: _Pois é! Vou escrever que a banda virou uma bosta. Heheheheh
          FL: _Hehehehe!
          PR: _Se tiver que dizer tem mais é que escrever isso mesmo. Eu não concordo com isso plenamente, na verdade. Eu só não curto muito coisas como o St. Anger que ficou muito mal produzido.
          FL: _Saquei. Por que em Minas os metaleiros são cabeça dura pra caralho, sacou? 
          PR: _Aqui no sul também, cara.
          FL: _Ah é?
          PR: _Sim aqui tem um pessoal que é bem radical nesse sentido também.
          FL: _Tem um pessoal lá em Minas que pra eles Sepultura é só os dois primeiros e acabou. O resto é tudo vendido pra Roadrunner e ficou uma bosta. Os caras mais metal ainda.
          PR: _Eu sei. É uma mistura de radicalismo e inveja porque a banda deu certo e eles ficaram se ferrando e não chegaram a lugar algum.
          FL: _Eu entendo pra caralho os caras. Principalmente, falando de Sepultura, os caras eram Death Metal e influenciaram muita coisa na época. Depois parece que a Roadrunner pegou eles e ai entrou produtor, o que direcionou o trabalho dos caras pra caralho. Ai veio o Beneath... e etc. E os caras tem razão, pois de repente tem uma banda que você gosta, com um estilão ali e ela não é mais aquilo, sacou? Ai você fica puto e pára de gostar.
          PR: _É. Tem dessas. Mas o cara dá um tempo e depois volta a curtir tudo de novo.
          FL: _É, passa o tempo e o cara começa entender a onda nova, ou não, e acaba curtindo de novo. Já com o Metallica eu sou radicalzão mesmo, o álbum preto eu não escuto não. Eu vou até o ...And Justice for All. Mas é um radicalismo meu mesmo. Eu não escuto, não quero escutar e tenho raiva de quem escutou depois do ...And justice for All. Hehehehehehe!
          PR: _Hehehehehe! Quando entra pra esse lado de paixão é dose mesmo.
          FL: _É, ai não tem mais explicação mesmo, acabou. Hehehehe!
          PR: _E seus projetos, cara? O que tem em mente para 2016?
          FL: _Cara. Como eu estava construindo a minha casa. Casa mesmo, quarto, sala, cozinha e o estúdio de mixagem do lado, eu fiquei muito tempo parado assim, sem postar nada de vídeos. Aí projetos, se eu for contar mesmo. Eu vou investir em fazer muito equipamento, projetos atuais que eu tenho que são uns 12 mais ou menos. E desenvolver uns outros projetos, que são uma exteriorização do que eu faço dentro do Pro Tools. Tipo, dobrar canais, separação de bandas, etc. Isso tudo vai virar equipamento. Um que faz isso com o bumbo e tal, tudo específico. Vou fazer outro nível do Cozinhando na Mesa de Som, com uma pegada mais analógica ainda. E vou tentar fazer o máximo de vídeos que eu conseguir para o Youtube, Facebook, o que eu for descobrindo de novo eu vou compartilhando por lá. E principalmente divulgar essa idéia ai, que as coisas que a gente faz não são boas não. A gente tem que melhorar pra caralho. Hehehehehe.
          PR: _Isso com certeza.
          FL: _Neguinho fica bravo quando ouve isso. Vem com aquele papo apaixonado: “Não, a gente tem muita coisa boa”. Mas não é bom o suficiente pra gente falar que é, né?
          PR: _Eu tenho contato com o produtor do Aerosmith, Warren Huart, acompanho o canal dele, trocamos alguns e-mails e tal. E o pessoal lá de fora está nesta mesma pegada de produzir vídeos e vender cursos sobre produção. E o que se observa é muito “copia e cola” com loops. O pessoal parou de gravar uma musica inteira do inicio ao fim. Você começa a trabalhar ela em partes para economizar tempo. Mas isso, eu expliquei para ele a teoria de um cara que lida com neuro-lingüística, mas é apaixonado por música. Ele diz que quando você escuta uma musica eletrônica ou composta por repetições de loops, seu cérebro tende a interpretar como mera repetição, não algo novo ou seqüencial, então acaba perdendo o interesse, deixa de ser instigado e aquela musica acaba se tornando chata e repetitiva. Acaba se tornando uma atividade monótona, porque é sempre aquela coisa repetitiva, muito certinha. Se você houve uma musica com essas características seu cérebro não entende como sendo 5 minutos de informação nova. Isso faz com que você perca o interesse nos detalhes de baixo, bateria, porque não soa diferente o tempo todo.
          FL: _Entendi. Doido isso, mas faz sentido.
          PR: _Quando estudei musica com professores de musica clássica e orquestra, ou mesmo quando conversei a respeito, eles me passaram que a tua pegada é diferente ao tocar um mesmo trecho no inicio da musica ou no final. É uma questão de perspectiva e de interpretação da obra. O mesmo acontece com o Heavy Metal. Se você está tocando um riff de guitarra no inicio dá musica a tua interpretação vai ser diferente ao tocar ele no final da musica. Uma coisa é iniciar um trabalho, há uma energia diferente porque a perspectiva muda de caso para caso. Quando você está fazendo a ultima repetição para acabar a musica, você sabe que tudo que tinha pra acontecer já aconteceu, você está só finalizando a peça. Até faz sentido, pois a musica hoje está meio cansativa. Meio não, bastante cansativa.
          FL: _A galera tá fazendo a coisa de uma forma errada, sabe? Acho que o termo é esse. É muito chato qualificar algo como certo ou errado, mas no caso da musica, ta errado mesmo, eu acho. Porque a gente tem que tocar e interpretar a musica. Você até pode tentar fazer a coisa dessa forma e achar que ta ficando legal, mas no final vai ver que não é a mesma coisa que você aprendeu a escutar.
          PR: _Quanto aos teus equipamentos, eu tenho acompanhado quase que em tempo real muitas coisas, a partir do que tu postas e divulgas porque venho te acompanhando a uns três anos já. E vejo algo assim. Se pararmos pra pensar nas coisas como eram quando o rock brasileiro estava surgindo com Secos & Molhados, Mutantes e outros até anteriores a essas bandas, eles eram uma galera que não tinha equipamentos de qualidade.
          FL: _É falava com um amigo a respeito disso.
          PR: _Aquele som que está gravadinho ali é feito na fibra, na raça mesmo, porque não havia equipamentos e nem conhecimento adequado para isso. E hoje a gente está voltando a cair na realidade de ser terceiro mundo. Não teremos mais coisas como Marshall e API por aqui.
          FL: _Pois é. Eu vi um boato que a Behringer comprou a Marshall. Agora acabou o mundo. O que tende a acontecer agora é haver uma distancia ainda maior entre o que é plastificado e o que é real. Ou a gente vai conseguir distinguir melhor isso. Ainda está tudo meio embolado. Digamos que, antes de mil novecentos e noventa e tantos ainda, antes do Pro Tools, era tudo de verdade. Todo mundo gravava mesmo. Se você ouvisse uma Whitney Houston da vida, ela canta aquilo ali mesmo. A galera gravou aquilo ali. E não tinha jeito de disfarçar isso. Era uma fita de rolo rodando lá e gravando o que estava acontecendo. Hoje não. Depois do Pro Tools você tem que perguntar se aquilo foi tocado e gravado mesmo ou foi editado e tal. Eu até aconselho as pessoas que gravam discos a usar isso como atrativo. Dizer que aquele álbum especifico foi gravado com as pessoas tocando e cantando de verdade. Hehehehe.
          PR: _É. Escrever na capa do CD: Eu toco de verdade. Heheheheh!
          FL: _Mas é o futuro, né bixo? Até postei um negocio estes dias que tinha uma mulher virtual fazendo show, uma menina. Ai a galera vai no show lá pra ver o holograma dançando e cantando, tudo 100% virtual. Mas vende e lota o lugar. Então é muito melhor colocar essa menina do que uma menina de verdade. Não vai haver problemas nunca com ela. Daí o futuro é isso. Vai ter uma massa que vai buscar essa facilidade. Programa de graça, plug in de graça, ou então pirateia mesmo. A coisa mais rápida do mundo assim. Quero fazer uma musica agora. Ai o cara pega e “PA”, fez a musica. E isso tá bem provado que não dá em nada né? Ninguém lançou um disco assim e ganhou o Grammy ou revolucionou alguma coisa. Nem precisa ir pro mainstream mais. Tem cara que faz muito sucesso com uma musiquinha feita em casa. A única coisa que faz sucesso feita em casa é funk. Mas isso vai pra outro lugar que não é nem musica.
          PR: _Já comentei com meus amigos e postei no blog. Na minha opinião a musica ao vivo tende a acabar. Banda tocando ali na sua frente vai ser a cada dia mais raro.
          FL: _Pois é. Acho que vai acabar os mais ou menos. Acho que ao vivo vai ficar tocando quem tiver atitude mesmo.
          PR: _Tu achas que vai ser algo mais underground então?
          FL: _É. Vai ser algo mais Underground. Se você for ver o show de uma banda vai ser mais animal ainda. Vai ser uma em cem, não vai acontecer todos os dias. Igual está acontecendo hoje com as gravações de verdade, né? Imagina. Quem que lança discos que não usa Autotune e não sei mais o que? Só os caras mais cascudos mesmo.
          PR: _Eu vi recentemente o show da banda do Slash, já que tu citastes ele num vídeo que postou a pouco, e o som é o do disco, é a musica de verdade. Mas ninguém é guri ali mais. São todos músicos rodados já e sabem exatamente o que podem fazer, tanto em disco como ao vivo.
          FL: _ Na banda dele você diz?
          PR: _Sim. Que agora está pra acabar eu acho, com a divulgação dessa reunião fora de hora do Guns n’ Roses.  Mais uma presepada pra tirar dinheiro do pessoal e entregar um resultado medíocre.
          FL: _ Pra fã deve ser animal. Ver uma apresentação do Guns de verdade tocando ali.
          PR: _Pode até ser. Mas eles perderam o tempo da história.
          FL: _Aham!
          PR: _Mas é isso ai, Lisciel. Muito obrigado pelo seu tempo e sucesso ai com seus projetos.
          FL: _Pô! Legal cara! Foi um prazeraço! Falar dessas coisas é bom demais. Essas idéias que são a essência da musica é que a gente tem que ensaiar com a galera.
          PR: _Isso ai. A gente tem que ouvir musica, né?
          FL: _Sim. Tem que ouvir muita musica, ensaiar com os amigos, fazer barulho e voltar com o ouvido apitando pra casa. Porque não é assim não. Abrir o computador e ficar em casa fritando não funciona não.
          PR: _Fazendo Jam com loops e samples.
          FL: _É, colocar um loop de bateria pra rodar e ficar brincando com uma guitarrinha la e se achando foda. Hehehehehehe!
          PR: _E isso ai. Grande abraço, cara! Sucesso.
          FL: _Bom demais meu velho! Abração.
          E esse foi o papo que tive com Felipe Lisciel. Tentei fazer a transcrição o mais fiel possível por isso alguns termos podem ter ficado meio estranhos. O Lisciel é uma figuraça e tem ideias bem bacanas e definidas do que ele quer na hora de fazer seus trabalhos. Fora isso, a construção de equipamentos é uma grande sacada, já que ele conhece bem o mercado nacional e pode ser uma solução ter alguém com esse perfil em uma época em que o Dolar passa de 4 Reais. Espero que tenham curtido. Não deixem de dar uma conferida no canal do cara no Youtube e sua página no Facebook, o site oficial está no inicio da postagem.





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