sexta-feira, 25 de março de 2016

Metal sem fronteiras - Líbano

          Paula Wehbe é uma jovem libanesa de 21 anos que é a vocalista de uma banda de Death Metal chamada Hemorrhagia e estuda engenharia agrícola. Ela passou um link para uma pagina no facebook (https://www.facebook.com/femalemetalheadsunited) e a partir daí passei a ter contato com o Metal praticado no Líbano. Paula me confidenciou que as bandas grandes de Metal não tocam por lá porque são barradas pelo governo. É sempre complicado para um ocidental entender como as coisas funcionam no Oriente médio devido a cultura ser muito diferente. O que chega de informação  para nós são noticias sobre abundancia de petróleo e guerra territorial e religiosa. 
É interessante lembrar que se tirarmos os aspectos religiosos e políticos característicos de cada região, somos pessoas simples que sentariam em algum lugar para beber algo, ouvir musica e falar sobre nossas coisas mais rotineiras.
          No Líbano existem lojas de instrumentos musicais e coisas do tipo, mas o Heavy Metal é visto como sendo algo Ocidental e que simboliza a personificação do mal tentando corromper os jovens Orientais. Enquanto Israel e Palestina lutam por território, a Síria expulsa seu povo com guerras constantes, o Brasil se afunda cada dia mais na lama da corrupção, é de se pensar no mal que o ser humano faz a esse planeta e a sua própria subsistência. A religião e a ganancia extrema estão corrompendo e matando aleatoriamente como uma epidemia incontrolável. Parece que mudam as tecnologias, mudam as ideias, mudam as leis, mas o conteúdo mesquinho e autodestrutivo do ser humano permanece o mesmo e vai se aperfeiçoando com o passar do tempo. Felizmente a arte ainda consegue unir pessoas que gostam das mesmas coisas e consegu
em passar por cima de tudo isso e simplesmente falar do que gostam. 
O Heavy Metal consegue atravessar as barreiras do tempo, da religião, da distancia e dos costumes, assim como outras formas de arte. Como pode também promover a paz entre as pessoas, coisas que a religião e a politica não conseguem? Talvez a resposta seja a mais simples do que imagine, não há dinheiro envolvido ou não é ele o foco principal. Segue abaixo o bate papo que tivemos, eu e Paula Wehbe, sobre esses assuntos.          
          Paulo Ramos: _O Líbano é um país localizado entre Palestina e da Síria ambos os países envolvidos em guerras constantes. Como é para o povo libanês viver com esta realidade?
          Paula Wehbe: _Não há problema, não nos afeta tanto. Vivemos em paz hoje em dia. Nós apenas temos algumas questões políticas influenciadas pelas guerras que nos cercam.
          PR: _Como é viver num país com toda essa pluralidade religiosa? Há muitos conflitos religiosos ou restrições da própria população devido a essa diversidade?
          PW: _Sim, vivemos em um país com grande pluralidade religiosa. Essas religiões estão meio que controlando a mente das pessoas (uma vez que elas são muito religiosas) e a política.
          PR: _Como a população libanesa vê o mundo ocidental e seus costumes?
          PW: _A velha geração pensa que o Ocidente exerce má influencia sobre o Oriente por causa de seus costumes e outras coisas, mas a nova geração olha para o Ocidente e tenta agir como as pessoas ocidentais e trazem algumas novas tecnologias, costumes, comidas e outras coisas para o Oriente.
          PR: _Como é o mercado musical no Líbano, gravadoras, lojas de CD, sites de streaming e shows?
          PW: _Quando se trata de música árabe ou Pop, você pode encontrar o que quiser. Quando se trata de Metal não dá pra encontrar nada! Não há lojas, sem espaço pra tocar, sem selos, sem nada.
          PR: _Entre a galera que curte Heavy Metal, qual é o estilo mais popular?
          PW: _Thrash/Heavy Metal. Mas pessoalmente eu sou mais do Death Metal com todas os seus sub-gêneros.
          PR: _Existe algum tipo de preconceito contra o Heavy Metal e de que forma esse preconceito se manifesta?
          PW: _Sim, as pessoas são na sua maioria retardadas. Elas pensam que somos satanistas devido às camisetas pretas que vestimos, o cabelo longo que temos, as tatuagens e outras coisas. Eles não estão acostumados a ver tais coisas. Então elas consideram isso como a personificação do mal trazida do Ocidente para destruir as novas gerações no Oriente!
          PR: _Quais seriam as bandas de Metal existentes em seu país?
          PW: _Blaakyum, Innerguilt, Deathlam, Hatecrowned, Kaoteon, Weeping Willow, Kimaera, Nocturna e Trashstorm.
          PR: _O Heavy Metal é profissional com escolas de música e um mercado formal por ai? Qual é a formação do músico que toca Heavy Metal no Líbano?
          PW: _A maioria deles aprendeu por conta própria, mas uns poucos aprenderam musica em escolas.
          PR: _Qual é a principal temática das letras compostas pelas bandas libanesas? As diferenças culturais e religiosas influenciam diretamente na atitude dos músicos?
          PW: _Cada banda tem a sua própria mensagem, mas a maioria delas têm um assunto em comum: lutar contra o sistema e contra a corrupção. A maioria dos músicos são ateus. Eu não acho que qualquer uma das bandas fala sobre as religiões. Eles evitam esse assunto em sua música.
          PR: _Que bandas de Heavy Metal são as mais adoradas no Líbano?
          PW: _Metallica, Motorhead, Iron Maiden, Slayer. As mesmas que são mais populares no Ocidente também.
          PR: _Qual é a frequência de shows com bandas ocidentais e como eles são recebidos pelo público libanês?
          PW: _Não há shows de bandas ocidentais por aqui. Só tivemos Nightwish e Epica. E há alguns anos o Katatonia tocou aqui e nada mais. Então, a única maneira de assistir aos shows de algumas bandas é viajar para o exterior, para outro país, infelizmente.
          PR: _O que você gostaria de dizer sobre seu país que não foi abordado nas perguntas anteriores?
          PW: _Gostaria que as pessoas parassem para ouvir, ler a respeito e conhecer nossa música antes de nos rotular de alguma forma devido a nossa posição geográfica.
          PR: _Falando de religião. O que o povo libanês pensa a respeito de Jesus Cristo? Ele é o centro da religião preponderante no Ocidente. Por que Jesus Cristo é tão importante para os ocidentais e é um pouco desprezado por vocês?
          PW: _Aqui nos somos muçulmanos ou cristãos e uma pequena parte da população é composta por Ateus. Bem, eu não sei. Eu sou uma crente e não ateu. O Oriente é sempre conhecido como sendo muito religioso. Provavelmente porque Maomé e Jesus viveram no Oriente e influenciaram o Ocidente de certa forma. O Ocidente não é conhecido como um lugar muito religioso. Mas o Oriente é totalmente o oposto.
          PR: _Lendo sobre sua história e riqueza cultural que os precede, por que há tanto radicalismo entre as pessoas daí? Qual é sua opinião a respeito disso?
          PW: _A maioria dos políticos são ditadores, começa por aí. As pessoas estão doentes por serem tratados como escravos ou sem direitos iguais e coisas assim. Então eles tinham que fazer revoluções para se tornam livres. A minha opinião não é contraria a tudo isso, mas prefiro ficar longe das guerras, tentar ser pacífica e encontrar uma maneira pacífica para se tornar livre considero que é melhor.
          Finalizo essa postagem falando que quanto mais eu tenho contato com outras pessoas de outros estados, países e outras culturas, mais fica claro pra mim que o dinheiro e a corrupção são os grandes males da humanidade. Que sem preconceitos, sem ambições exageradas e sem medo de viver o simples, podemos existir com dignidade e coexistir respeitando as diferenças de cada um. Independente da religião, nacionalidade, cor da pele ou idioma, a grande preocupação deveria ser a sobrevivência digna e justa para todos, sem discrepâncias ou excessos, pois as necessidades básicas são comuns a todo o tipo de ser humano. A cultura e a arte são as únicas coisas capazes de ir contra tudo e contra todos e ainda unir as pessoas.
          Outra coisa interessante é o fato de as bandas ocidentais não poderem entrar no Líbano. Como a Paula falou acima, para eles assistirem a algum show de uma banda grande, tem que viajar para outro país. Na década de 1990 era assim no Brasil também. Entretanto, isso se devia a falta de interesse das bandas em virem pra cá e quando vinham, normalmente ficavam apenas no eixo Rio-São Paulo. A partir do momento que as bandas notaram que era mais lucrativo realizarem mais shows pelo país, começaram a diversificar os locais para suas apresentações. No caso do Oriente médio a coisa é diferente, há grande resistência em aceitar manifestações artísticas ocidentais. Talvez eles não vejam motivos para abrir suas fronteiras para outras culturas e colocarem em risco suas leis e seus costumes. O certo é que sempre haverá um grupo de pessoas, mesmo que pequeno, que tentará romper certas fronteiras e buscar aquilo que acham que seja mais interessante para elas. A internet possibilita isso, mas também possibilita outros tipos de manifestações mais nocivas e perturbadoras, que não é o caso mencionar aqui. 
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