sábado, 23 de abril de 2016

Metallica, o início

         
          Desde o início dos anos 90 sempre falei a todos que a minha banda favorita era o Metallica. O motivo, a apresentação de One no Grammy de 1989 (assista aqui). De 1990 a 1994 eu gravei em fita K7, como era de praxe na época, a demo anterior ao álbum Kill Em' All, No Life 'till Leather de um programa de rádio, também gravei o Metallica e o ...And Justice for All numa fita de 90 minutos da Basf, um álbum de cada lado, claro que não couberam todas as musicas. Outro álbum que tive acesso foi o Ride the Lightning, que também gravei em fita, e por um bom tempo foi o disco que mais gostei em toda minha vida. O ultimo álbum do Metallica que gravei em fita foi o Master of Puppets. Com a grande lacuna entre o álbum preto e o Load, o Metallica foi muito badalado e já causava polêmica por causa dos álbuns ...And Justice for All e o próprio Metallica. O que mais me chamou a atenção no Metallica naqueles tempos, foi o tamanho da banda, tocando para milhares de pessoas em estádios lotados. Guns n' Roses estava nesse nível também, além das bandas de Hard Rock dos anos 70 e 80 que costumavam lotar arenas, mas uma banda de Metal, acho que somente o Iron Maiden poderia se orgulhar de fazer isso o tempo todo. Porém, esse ultimo vinha de um álbum fraco, No Prayer for the Dying e em seguida um irregular, Fear of the Dark. Outras bandas de Metal estavam seguindo os passos do Metallica como o Testament, Anthrax, Kreator, Annihilator e Megadeth, buscando uma sonoridade alternativa ao Thrash Metal dos anos 1980. O próprio Slayer gravara um álbum de covers punk. Não é o caso aqui analisar o cenário musical profundamente, essas referências servem apenas para situar o leitor no momento musical vivido naquele período. Estamos falando de uma época onde grandes bandas de Hard Rock de arena começavam a fraquejar e davam seu último filho, o G N' R, ás grandes massas e o Pantera e o Sepultura ainda não haviam estourado ao ponto de influenciar a sonoridade dos anos 2000. Os únicos movimentos que estavam em ascensão eram o Death e o Black Metal, claro, e seus afluentes, porém ainda eram muito complexos e marginalizados para alcançarem o grande público. Se seus álbuns e demos ainda demoravam para circular por diversos países ao ponto de chamar a atenção da mídia mais comercial, imagine que o Metallica lotava arenas nos quatro cantos do mundo.         
          Nascido em 26 de dezembro de 1963 na cidade de Gentofte, na Dinamarca, Lars Ulrich era filho de um tenista profissional famoso e que também era dono de um bar onde tocava Jazz. Lars viajou o mundo para acompanhar o pai nos diversos torneios que disputava. Filho único e convivendo com o entra e sai de músicos na casa dos pais, o menino teve uma vida tranquila financeiramente e aprendeu muito cedo a ser independente, já que tinha que preparar o próprio café da manhã para ir para escola. Na biografia escrita por Mick Wall e para algumas revistas, Lars dizia que acordava pela manhã e a casa estava aberta e cheia de garrafas vazias de cerveja e copos espalhados por todo o lado devido as recepções dadas por seus pais aos músicos que tocavam no bar de jazz. Fã de Deep Purple, Lars ganhou sua primeira bateria da avó aos 13 anos. Aos 16 foi morar nos Estados Unidos em Los Angeles, lá conheceu e se apaixonou por bandas da New Wave of British Heavy Metal. Costumava gastar muito dinheiro com álbuns de bandas deste tipo. Chegou a voltar a Europa para se aprofundar mais nesse estilo e conhecer a cena de perto. Ficou na casa de Brian Tatler, fundador do Diamond Heads e uma das principais influências do Metallica e do Megadeth. Como a cena inglesa era muito forte desde o Black Sabbath e Deep Purple, passando por Motorhead e Judas Priest e chegando ao NWOBHM, Lars volta para os Estados Unidos empolgado em formar uma banda e divulgar aos amigos o que tinha vivido em sua temporada europeia.
          Em 1981, Lars colocou uma anuncio no jornal Recycler procurando músicos para formar uma banda e tocar musicas de Tygers of Pan Tang, Diamond Heads e coisas do tipo. Hugh Tanner respondeu ao anuncio e marcou um encontro com Lars e levou seu amigo James Hetfield, chegaram a fazer um som, mas segundo este ultimo foi horrível, ele sequer foi com a cara do baixinho fedorento e tagarela com sotaque esquisito. Porém Brian Slagel, que era amigo de Lars e fundador da gravadora Metal Blade, procurava bandas para uma coletânea de bandas independentes. Lars chamou Hetfield, que tocava no Leather Charm junto a Ron McGovney que se tornaria baixista do Metallica e era amigo de James, e eles gravaram uma demo em 4 canais com James cantando, tocando baixo e guitarra e o professor de guitarra dele, Lioyd Grant gravou o solo. A musica era Hit the Lights. O nome da banda foi tirada de uma lista do outro amigo de Lars, Ron Quintana, que estava tentando batizar um fanzine que ficava entre Metal Mania e Metallica. Um segundo anuncio de Lars no Recycler procurando um baixista foi respondido pelo guitarrista Dave Mustaine, pois Ron não estava muito contente em tocar baixo, sequer sabia tirar algum som do instrumento.
          James Hetfield era de uma família extremamente religiosa e começou a tocar e ter aulas de piano aos 9 anos. Sua mãe Cynthia era cantora lírica e incentivou o filho a aprender musica. Segundo James, tocar piano fez com que ele tivesse a independência necessária para fazer duas coisas ao mesmo tempo, como cantar e tocar guitarra, pois o piano exige que se tenha independência para tocar a melodia e a harmonia ao mesmo tempo. O pai de James, Virgil, era motorista de caminhões e saiu de casa quando ele tinha 13 anos e só reapareceu no inicio dos anos 1990. James rebelou-se contra as crenças religiosas dos pais por não poder tomar sequer um analgésico para dor de cabeça devido a religião da mãe. Motorhead e Thin Lizzy foram fundamentais para que ele se apaixonasse por Heavy Metal e formar a banda Leather Charm. Sua relação com Lars não foi muito amistosa no inicio, mas ele comenta que a recepção na casa dos pais do dinamarquês eram muito diferentes do que ele estava acostumado em sua casa devido a hospitalidade natural da família Ulrich. A paixão comum por NWOBHM foi fundamental para que a dupla se mantivesse unida, embora James se identificasse mais com o estilo marrento de Dave Mustaine. Quando juntou-se ao que seria mais tarde o Metallica, Hetfield já havia saído da casa da mãe e morava na casa dos pais de Ron McGovney que estava para ser demolida.
          Dave Mustaine era um menino que tinha que conviver, juntamente com suas irmãs, com os abusos do pai, que embora fosse uma figura aparentemente normal, era um alcóolatra que descarregava na família todo seu descontrole. Aprendeu cedo a conviver com as fugas noturnas de cidade para cidade depois que sua mãe resolveu se separar de seu pai. Dave interessou-se pela guitarra ao ver a irmã mais velha ter aulas de violão. Conta-se que a própria irmã quebrou o violão na cabeça dele por não suportar mais seu barulho. Aos 15 anos Mustaine sai de casa e passa a vender drogas para pagar o aluguel e se sustentar. Segundo conta, sua mãe casou-se novamente e seu padrasto, muito religioso, implicava com as capas dos álbuns do garoto. Uma de suas clientes trabalhava numa loja de discos e lhe dava álbuns do Judas Priest, Iron Maiden, Motorhead, entre outros para pagar pelas drogas. Ele forma algumas bandas e se interessa pelo anuncio de Lars no Recycler.
          Em determinado momento, com duas musicas lançadas nas coletâneas Metal Massacre 1 e 2, todos os integrantes do Metallica vão morar na casa de Ron McGovney, que convencido por James, assumiu definitivamente o baixo da banda. Juntos melhoram gradativamente sua parte musical, mas Dave Mustaine tem atritos com Ron e James em 1982. Segundo narrativa dos envolvidos, Dave tinha trazido dois cachorros para o ensaio e um deles arranhou o carro de Ron. James e ele discutem e chegam as vias de fato. Mustaine é demitido, porém é aceito no dia seguinte após desculpar-se. Para os três, Lars, James e Dave, a banda é a vida deles e a única chance de conseguirem fazer algo decente. Porém, para Ron era apenas diversão e em alguns momentos ele se sentia incomodado por ser praticamente baixista, roadie e transportar a banda para todo lado, fora isso, tinha que segurar a barra dos três quando a coisa ficava preta junto a seus pais.
          Graças aos esforços de Lars, o Metallica passa a ter nome e visibilidade no circuito de trocas de fita e seus shows começam a chamar a atenção. Imagine que nessa época o Metallica tinha um baterista esforçado, mas que apenas era bom no Business e um baixista descontente e desmotivado que sequer conseguia tocar seu instrumento direito. Juntando-se a isso, Dave e James eram os durões que ficavam incontroláveis quando bebiam e bebiam muito. Embora Hetfield fosse mais tímido, Mustaine era mais agressivo e perigoso. Num desentendimento de Lars com um integrante do Armored Saint, Dave quebrou a perna do sujeito com um golpe de karatê.
          Numa das viagens a San Francisco, Lars e James, aconselhados por um amigo, vão assistir a banda Trauma. O baixista era um hippie que parecia estar enlouquecido no palco e tocava muito mais do que qualquer um no Metallica pudesse conceber. Ron já notara o interesse, principalmente de Lars, no baixista do Trauma e começou a se preparar para deixar o Metallica. Depois de muitas conversas e impondo a condição de que a banda teria que se mudar para San Francisco, Cliff Burton entrou para o Metallica. Como em Los Angeles a banda era pequena devido a dominante cena  Glam, decidiram mudar-se para El Cerrito e ficar mais dentro da cena que começava a se formar. Os quatro rapazes tiveram a ajuda de um casal dono de uma loja de discos em Nova Jersey, John e Marsha Zazula, apaixonados pela demo da banda No Life 'til Leader, que os levaram para sua cidade e os abrigaram no porão. O casal acreditava muito na banda e bancou o primeiro disco. Na época John Z cumpria pena em regime semiaberto por invadir o sistema de segurança de uma loja.
          A demissão de Dave Mustaine devido ao seu comportamento e a entrada de Kirk Hammet, que era guitarrista do Exodus, foi fundamental para a consolidação do Metallica e do Thrash Metal no cenário mundial. Embora Mustaine tivesse que curar uma ressaca durante 18 horas dentro de um ônibus para Los Angeles, toda aquela raiva se tornaria o Megadeth, talvez o segundo maior nome do estilo, perdendo apenas para o próprio Metallica. Embora alguns boatos sobre um plano de demitir Lars e chamar um baterista mais competente tenha se criado alguns anos depois, o fato é que seria impossível a banda contar com tantas lideranças. Para James, ficar ao centro tendo Mustaine de um lado e Cliff do outro, a situação era muito estressante, ainda mais que era Dave quem falava com o publico, mesmo que ele James fosse o vocalista. Sua timidez, ou mesmo falta de interesse em ficar a frente do grupo, fez com que a banda cogitasse chamar o vocalista que gravou o primeiro álbum do Tygers of Pan Tang, Jess Cox, mas isso não ocorreu. Para bandas como o Anthrax, que foi a banda que dividiu um abrigo com eles na época das gravações de Kill 'Em All, o Exodus de Kirk Hammet, o Armored Saint e o próprio Megadeth, o Metallica seria uma referência que seria difícil de se afastar. Para o Slayer, que talvez fosse a banda mais veloz e agressiva de todas, sua atitude foi muito alterada por causa do Metallica, já que queriam ser mais rápidos e mais agressivos do que eles. Quando saiu o primeiro álbum da banda em 25 de julho de 1983, não pararam de ocorrer lançamentos de bandas de Thrash Metal, uma mais interessante que a outra.
          O Metallica é uma banda que foi sendo conhecida rapidamente devido ao boca a boca do circuito de troca de fitas, mas também muito pela persistência e a vontade de Lars, que para muitos não considerava o ambiente a sua volta de outra forma, a não ser ao que era relacionado a música. Hoje é muito fácil criticar outros músicos e desdenhar o trabalho deles, mas em 1980 quando o Metallica começou, tudo era muito diferente. Se Lars não é nem de longe o baterista mais interessante tecnicamente, sua importância para o Heavy Metal o coloca acima de todos os outros, exceto um nome ou outro. Gravar um vídeo para o Youtube e ficar descendo o pau na forma como o cara toca é fácil, mas segurar a onda de uma banda que já teve diversos problemas quase que fatais não é para qualquer um. A morte de Cliff Burton encerrou um ciclo para a banda. Cliff seguia certa ética e era a liderança criativa do Metallica, conforme eles mesmos falam. Segundo relatos, ele sabia se impor quando a situação precisava. Mesmo a banda sendo de Lars e James, Cliff era o moderador sábio e respeitável. Para ele ficar fazendo papel de idiota nos clipes da MTV não era digno do Heavy Metal. Cliff Burton era o DJ do Metallica e ele ouvia de Misftis a Simon and Garfunkel. Enquanto Lars e James piravam ao som da New Wave of British Heavy Metal, era o baixista que os fazia ouvir Yes, Jazz e musica clássica. Não é a toa que o baixista já registrou um solo de baixo logo no primeiro álbum da banda.
          Para terminar, gostaria de pedir desculpas a todos que acham que o Metallica é uma banda vendida e o escambau. Antes de gravar o Load e mudar o visual, a banda já alcançara o topo ao lançar o disco preto. Até aquele momento a maioria das bandas de Thrash tentava seguir o Metallica para onde é que eles fossem. Acredito que esse tipo de som perdeu espaço para as bandas de Seattle como Alice in Chains e Nirvana, fazendo com que os novos fãs de Rock e Metal buscassem coisas mais simples e intimistas. Se ...And Justice for All é um álbum complexo e tem uma sonoridade estranha, isso se deve ao fato do Metallica ter perdido Cliff Burton no acidente na Suécia e ter que lidar com o luto, enfrentar suas fraquezas e ainda manter a banda grande. Antes da gravação deste álbum, a banda prestou uma homenagem a seus ídolos gravando covers com o novo baixista, Jason Newsted, em The $ 5.98 E.P.: Garage Days Re-Revisited. Depois disso lançou seu primeiro vídeo clipe para "One" e a partir dai eu acompanhei a banda até os dias de hoje. Vi o Metallica dizer Adeus a Cliff Burton no vídeo Cliff Em' All e romper com a época romântica do Thrash Metal dos anos 80. Se para muitos a banda de James e Lars é uma piada, nada do que eu escreva aqui vai mudar isso. O objetivo dessa postagem é compartilhar minha paixão pela banda e porque ela é tão importante musicalmente para mim, abrindo minha mente para o Heavy Metal e tudo que se relaciona a ele. Vi a banda ao vivo em 1999 e em 2010, posso dizer que foram momentos únicos e insuperáveis em termos de Heavy Metal. Se é impossível o Metallica gravar um disco ao nível daqueles que já se tornaram clássicos, a banda continua firme e tudo pode ser visto ao vivo e sem playbacks.



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