domingo, 8 de maio de 2016

Pantera

         
          Já escrevi aqui neste espaço sobre o início da carreira de algumas bandas que eu adoro e são muito populares no meio musical, principalmente no Heavy Metal. O motivo de eu falar sobre o início de Metallica, Iron Maiden e Black Sabbath, foi eu gostar mais dessa fase inicial da carreira dessas bandas. Sei que o Iron Maiden é mais criativo e surpreendente nos álbuns The Number of The Beast, Piece of Mind e Powerslave, mas gosto muito da crueza e honestidade dos álbuns com Paul D'Ianno. O Black Sabbath, nos seus primeiros álbuns com Ozzy ainda nos vocais, é a gênese do Heavy Metal, por coincidência, são os seus álbuns mais criativos e influentes. O mesmo pode ser dito sobre o Metallica, que em seu primeiro álbum, já superava a New Wave of British Heavy Metal em velocidade, peso e agressividade, dando origem ou abrindo os trabalhos de um estilo enormemente representativo pra o Metal que é o Thrash. O Metallica lançou dois álbuns fantásticos na sequência, Ride the Lightning e Master of Puppets que são o auge criativo da banda ainda com Cliff Burton no baixo. Falamos da década de 70 e 80, mas e a de 90? Será que deu ao Heavy Metal algum fruto? A resposta é sim, vários. Um deles é o Pantera.
          Não vou falar do início da banda porque contraria o enfoque principal aqui, que é o meu gosto pessoal. Embora muitas pessoas considerem a fase inicial do Pantera e seus álbuns independentes como sendo a mesma banda, eu já vejo como sendo uma fase de gestação. Ignoraremos a fase de 1981 a 1985 com esses três álbuns independentes, Metal Magic, Projects in the Jungle e I Am The Night e seu vocalista Terry Date. Nessa fase a banda fazia um Metal que misturava um pouco de NWOBHM, Hard Rock e Rock dos anos 70. Não que os álbuns sejam ruins, porém soavam genéricos demais devido ao grande amontoado de bandas Heavy Clássico dos anos 1980. Pra se ter ideia esses álbuns coincidem com os três primeiros do Metallica em anos de lançamento. Enquanto algumas bandas já estavam consolidadas, o Pantera estava na fase romântica da carreira musical. Porém, é preciso ressaltar que, no seu ultimo álbum independente há uma mudança quase fundamental para o futuro da banda, a entrada do vocalista Phill Anselmo para gravar Power Metal de 1988. Nessa época a banda tinha um visual Glam, e assim como o tipo de som, já estava saturado para a nova época do Heavy Metal. Para este ultimo álbum independente a banda regravou algumas coisas da época de Terry Date e adicionou material inédito para os vocais do ex-Razor White. Com um instrumental um pouco mais pesado e com riffs mais marcantes, o Pantera assina com a gravadora Atco para só assim lançar seu primeiro álbum propriamente dito.
          Conheci o Pantera através do álbum Vulgar Display of Power e sua linda capa, pelo menos é o que eu achava na época. Na verdade é a imagem de um punho cerrado atingindo um rosto. Na contracapa havia uma foto bizarra dos integrantes da banda com um visual mais rapper do que o costumeiramente utilizado pelas bandas da década de 1980, claro, já estávamos em 1993, eu acho. Nesse meio tempo o Pantera já havia lançado o álbum Cowboys From Hell, mas que criou relevância após o lançamento de seu segundo disco. Ouvi anteriormente o Vulgar..., e como ainda estava começando a conhecer os estilos musicais, achei o conceito lindo. Nada se comparava ao groove da guitarra de Diamond Darrel (como era chamado na época). Faixas como Regular People (Conceit) e Hollow fizeram com que eu questionasse a qualidade de One e Sad But True do Metallica. Pantera era pesado e moderno. Os músicos agora vestiam bermudas, camisas de flanela, tênis All Star ou botinas. Mais parecia uma banda grunge, que era o estilo em ascensão da época, do que o visual tradicional do Metal. Acho que essas mudanças foram as mais importantes para a banda, sonoridade e visual. Agora havia uma banda de Metal alternativa, porém, tão agressiva quanto as de Thrash dos anos 80 e mais honesta que as do Death Metal, que também começava a criar mais corpo nessa época.
          A MTV foi fundamental para que o Pantera fosse conhecido no Brasil, o início das transmissões. O Sepultura também contribuiu para o sucesso e a aceitação da banda pelos brasileiros, já que eles não haviam tocado por terras tupiniquins e saíram em turnê com os brasileiros pelos Estados Unidos, o que repercutiu muito bem por aqui. Comprei os álbuns Cowboys From hell e Vulgar Display of Power no mesmo dia e achei o primeiro menos atraente, afinal, ainda tinham resquícios do Glam da década de 1990, porém a faixa titulo e Psycho Holiday eram geniais e Cemetary Gates era a musica mais perfeita que eu já ouvi. Decorei todas as letras e detalhes desses álbuns de tanto que ouvi. Foi uma febre que não só tomou conta de mim, como da maioria dos amantes de Rock e Metal da minha geração. O Pantera passou a ser capa de revistas, aparecer em documentários e tocar com diversos gigantes do Metal. Suas participações em festivais clássicos deram a banda uma afirmação no cenário musical e possibilitaram que eles escrevessem seu nome na história do estilo.
          Em 1994, o Pantera aparece com os vídeos de I'm Broken, 5 Minutes Alone e Planet Caravan para promover o álbum Far Beyond Driven. Na capa uma imagem mais agressiva que a do álbum anterior. Havia uma bunda sendo perfurada por uma broca. Essa capa foi censurada e os relançamentos continham uma caveira em azul. Musicalmente o Pantera estava mais agressivo e direto, porém parecia ser uma tentativa de reeditar o Vulgar... isso ficou nítido em musicas como 5 Minutes Alone que lembrava Walk e Strengh Beyond The Strengh que seguia a linha de Fucking Hostile. Embora esse detalhe possa ter sido positivo no sentido comercial, algo estava errado em termos sonoros a partir da quinta faixa. O Pantera se mostrou obscuro e monótono a partir de então, com raras exceções em alguns momentos, mas não teria nenhuma musica relevante pra citar. Claro que assim que adquiri meu exemplar e comecei a dissecar cada segundo das musicas, a empolgação era grande. Os clipes citados acima ajudavam a induzir os fãs, como eu, que a banda estava no auge, realmente estava, mas quando virava o disco de vinil para escutar o lado B, as coisas ficavam estranhas. Eu esperava que a banda, além de fazer alusões claras áquilo que fizeram e deu certo, voltasse a trazer coisas mais Heavy, o que se espera de uma banda inovadora, porém não aconteceu. Talvez isso tenha feito com que a banda se desgastasse e seus integrantes tenham se afastado, principalmente seu vocalista.    
          O álbum gerou excelentes criticas, porém a sua turnê de divulgação fez a banda entrar numa descendente devido ao abuso de drogas e exageros diversos. Phill Anselmo ficaria afastado definitivamente da banda desde então e gravaria os vocais em separado dos demais integrantes no álbum seguinte. Uma overdose teria prejudicado ainda mais o vocalista que já sofria com dores nas costas. Enquanto o Pantera lançava seu disco mais obscuro, o fraco The Great Southern Trendkill, conquistando mais fãs e popularidade, suas letras e sonoridade já mostravam ares de desgaste irreversível. O Pantera lançou Official Live 101 Proof que chegou a ser bem aceito pelos fãs e mais alguns vídeos como Vulgar Videos e 3 Watch It Go, mostrando as divertidas, mas abusivas turnês da banda e contendo seus vídeo clipes. Os álbuns independentes deram ao Pantera a maturidade musical e a possibilidade de testarem muitas coisas. Entretanto, quando a carreira realmente decolou a banda já estava no seu limite, isso fez com que a banda saísse do ápice e mergulhasse rapidamente em declínio.
          A banda entra em estágio de apreensão, pois seu vocalista lança álbuns com seus projetos paralelos e cai na estrada para divulga-los. A partir de 1998 o futuro da banda era incerto. Bandas como Slipknot, Coal Chamber, Mudvaine, Limp Biskit e Korn ganharam visibilidade e o Pantera parecia ter sido deixado de lado. Claro que essas bandas citadas não chegaram a rivalizar em termos de popularidade com eles, mas saturaram um cenário onde o Pantera já estava desgastado. Muitos viraram as costas para a banda que produzia polêmicas e boatos, mas sequer conseguia fazer uma turnê decente. Por outro lado, as bandas do chamado New Metal, inspirado por eles e Sepultura ganhavam corpo e estavam com todo gás. Se o Pantera padecia pela grande quantidade de bandas que surgiam e chamavam a atenção do moleques, o Sepultura também naufragara com a saída de Max Cavalera. Se o Pantera tivesse a longevidade das bandas clássicas poderia ter sobrevivido, pois já alcançara a notoriedade necessária para isso, mas não aconteceu.
          Em 2000 o Pantera lança Reinventing the Steel. Um álbum longe de ser um clássico, mas mais interessante que seu antecessor e mais equilibrado que o Far Beyond Driver. Sem forçar a barra para se manter no posto de banda fodona e sem a obscuridade causada por drogas e excessos, o quinto álbum da banda foi muito bem aceito por críticos e fãs, pois dava a entender que com alguns ajustes e acertos em pontos específicos o Pantera voltaria a retomar seu caminho. Entretanto o vocalista já não queria mais fazer parte daquilo e obrigou seus colegas a desistir de esperar por ele. Superjoint Ritual e Down principalmente mantiveram Phill Anselmo no mercado, enquanto os irmãos Abbot amargavam o ócio e Rex Brown não se posicionava, mesmo tendo participado de alguns registros com Anselmo. Aquele álbum foi o derradeiro da banda e jamais voltariam a gravar novamente. O Pantera despediu-se de forma polêmica e deixando os fãs confusos em relação ao futuro.
          Quando em 2003, Down em alta e os irmão Abbot acenando com um novo projeto, Damage Plan, parecia que todos estavam se encontrando, mesmo que não fosse juntos. Chegaram a chamar a atenção em festivais e causaram alguma expectativa. Em 2004 o Damage Plan lança seu álbum de estreia e sai em turnê, porém em dezembro daquele ano, no inicio de um show em  Columbus, Ohio, um fanático por Pantera chamado  Nathan Gale  abre fogo contra banda e mata Dimebag Darrel. Fim do Pantera para sempre, fim de Phill Anselmo e suas bravatas contra seus ex-companheiros. Lentamente o Down começou engrenar uma solidificação de carreira, mas logo foi se esfacelando e jamais alcançou o reconhecimento que o seu líder imaginava. Vinnie Paul permaneceu sendo baterista e é figura importantíssima para a banda Hellyeah. Entretanto, ambos vivem a sombra de sua ex-banda e da fama que o Pantera lhes proporcionou nos anos 1990.
          O Pantera durou 20 anos e lançou dois grandes álbuns na verdade. No geral, o mais notório foi a forma como sua música proporcionou ao seu guitarrista marcar seu nome eternamente na história da guitarra. Por mais que em muitos momentos o Pantera mostrasse alguns deslizes, o timbre incomum e o groove de Dimebag reformulou a forma de encarar o instrumento. Influente e polêmica, a banda foi um marco dos anos 90 e a resposta do Heavy Metal ao som de Seattle. Era de visual hibrido, típico da época, mas de uma musicalidade orgânica e inovadora. Talvez o grupo tenha se desestabilizado e não conseguisse voltar a se equilibrar porque seus membros eram pessoas tão extremas quanto sua música. Volto a mencionar que a banda, ao meu ver, deveria ter lançado um álbum de covers registrando suas influências e talvez aliviando um pouco a tenção do ambiente. Com isso a banda poderia dar uma revisitada em seus antigos álbuns independentes e tirar de lá alguns temas para dar uma revigorada no estilo. Muitas bandas fazem isso quando as coisas estão degringolando. Lamento que a banda tenha tido esse fim tão sem graça e até trágico, com a morte de sua grande referência musical. Por sorte a banda deixou uma quantidade de material razoável para a posteridade, e como a maioria das bandas que estouraram nos anos 90, teve vida curta e um sucesso rápido seguido de um declínio quase que imediato. Mas fica a menção honrosa para essa banda que mudou os rumos do Heavy Metal a duas décadas atrás.







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