domingo, 3 de julho de 2016

Entrevista com Daniel Piquê






          Como de costume, escrevo mais uma postagem para esse blog. Dessa vez trago mais uma entrevista com um personagem que julgo ser interessante e que esteja disposto a colaborar. Dessa vez apresento aos leitores um jovem guitarrista mineiro que já correu o mundo tocando guitarra e mostrando sua arte para diferentes tipos de plateia. Daniel Piquê saiu da cidade mineira de São Sebastião do Paraíso para ganhar respeito e reconhecimento de artistas e diferentes públicos de fora do Brasil. Seu CD solo Boo mostra um guitarrista eclético e talentoso, acompanhado de feras como o baixista Billy Sheehan (Mr. Big, Winery Dogs, entre outros) e o baterista Mike Mangini (hoje substituindo Mike Portinoy no Dream Theater), já demonstra maturidade e bom gosto nesse primeiro trabalho solo. Esse álbum foi registrado logo após ele perder o pai, mesmo assim o que se ouve nas nove faixas que integram o CD é um músico muito seguro e ousado. A importância dessa entrevista se dá pelo contraponto á outras entrevistas presentes neste blog, pois Piquê é fruto de uma geração com acesso a muita informação por causa da internet e a globalização que ela proporciona. Mas o talento de Daniel não para apenas na sua exuberância técnica na guitarra e seu bom gosto como compositor. O jovem mineiro é produtor, um premiado diretor de vídeo, apresentador de programa no Youtube, diretor de arte, entre outras coisas. O papo que segue diz mais a respeito da personalidade e das conquistas de Daniel Piquê nessa curta, mas muito promissora carreira que tem alcançado resultados de se tirar o chapéu.
       
          Paulo Ramos: _Você é natural de São Sebastião do Paraíso, correto? Como era sua vida antes de entrar no mercado musical? Foi sempre uma ambição ser músico ou cogitou fazer outras coisas? Como sua família reagiu frente as suas escolhas?

          Daniel Piquê: _Sim, mineirinho. Posso dizer que só não era uma vida clichê de quem viveu os anos 90s no interior de Minas Gerais por conta dos meus pais. Minha mãe, sendo filha de um ex-diretor da VARIG/Transbrasil, acabou tendo uma formação pessoal diferenciada, por mudar regularmente de cidades na infância (até morou no Chile por algum tempo). Já o meu pai, antes de me ter, já tinha experiências profissionais bem relevantes em grandes centros como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, enfim.. Minha educação foi baseada nesta mistura louca. Sempre fui um guri curioso, e sempre tive o apoio deles para colocar em prática as minhas ideias mirabolantes. Eu sempre quis fazer varias coisas.. Alias, até hoje eu busco isso! Dentro de casa, o critério de excelência era muito forte, então, os meus pais apoiaram a minha decisão de entrar no mercado musical porque realmente viram algo acima da média em mim. Foi tudo bem orgânico. Minha mãe sempre me dizia: "você pode fazer qualquer coisa, porque eu sei que você vai fazer bem feito". Tive que ralar bastante, mas as coisas foram acontecendo naturalmente mesmo. Na época, eu não tinha uma consciência estratégica, mesmo porque, a internet estava engatinhando e o interior de Minas sempre teve deficiências no acesso à informações.

          PR: _Quem é Daniel Piquê num contexto geral? Como você justificaria sua existência para seus semelhantes? Por que você acha que merece a atenção que tem recebido? Pare por um momento e questione sua importância no contexto, é interessante. Gostaria de conhecer sua autocritica.
          DP: _Eu sou apenas um homem. Sendo cristão, eu acredito que vim aqui por um propósito maior, e, que tudo que acabei conquistando nestes poucos anos de carreira, foi porque Deus quis que acontecesse. Eu só tento fazer o meu melhor. Tenho consciência de que inspiro muita gente, e isso me alimenta. Entendo que a música é como um organismo vivo, alguém tem que alimentar, e tentar evoluir. Penso, planejo e executo.. Dai, quando algo da certo, acaba chamando a atenção das pessoas por "N" motivos.

          PR: _Descreva suas atividades profissionais e cite alguns trabalhos pontuais que justificam e ilustram sua carreira.
          DP: _Eu trabalho com muitas coisas ao mesmo tempo, então vou escolher algumas das minhas atividades mais usuais: Guitarrista (shows em mais de 30 países), Diretor de Vídeo (prêmio de melhor DVD instrucional do mundo - pela revista Mordern Drummer, USA), Compositor (primeiro brasileiro a ser finalista do International Songwriting Competition, na categoria instrumental), Produtor Musical (fundação do Piquê Studios), Apresentador (programa LiFeStream), e Diretor de Arte (4.3 milhões de visualizações espalhados pelo YouTube).

          PR: _O que os nomes consagrados com quem trabalhou e trabalha colaboraram para seu crescimento pessoal e profissional, ou isso não ocorreu?
          DP: _Meu primeiro contato com o Billy Sheehan e o Mike Mangini, por exemplo, foi com 19 anos. Já sem o meu pai vivo, os dias de convívio com eles foram uma escola de vida sem preço. Eu sou daqueles que fica sempre de olhos abertos, aprendendo com tudo. Busco sempre trabalhar com pessoas que admiro, então, geralmente, o crescimento profissional vem sempre alinhado com o crescimento pessoal.

          PR: _Suas conquistas artísticas são impressionantes. Cito o International Songwriting Competition como a façanha mais relevante para o meio artístico. Explique do que se trata e como ocorreu o processo para chegar a final e o que representou pra você profissionalmente alcançar esse feito?
          DP: _O ISC é um dos concursos de composição mais importantes do mundo. O corpo de jurado é sempre formado pelos profissionais mais prestigiados do mercado internacional e acaba dando muita exposição para os finalistas, fazendo as musicas chegarem no radar da maioria dos profissionais influentes do mercado. Eu me lembro de ter recebido um convite para participar; Achei bacana e me inscrevi. O tempo foi passando, e cheguei até a esquecer que tinha feito a inscrição (porque o processo demora meses), até receber um e-mail do idealizador do evento, me parabenizando por passar de fase. E assim foi, até a final. Muita gente acabou conhecendo o meu trabalho por lá, o que me deixou extremamente feliz. Agora, o mais bacana foi saber que minha música ‘CHU’ agradou o gosto dos jurados, que são profissionais que admiro muito. O fato de julgar músicas não me agrada muito, mas, foi bacana levar o nome do Brasil para o exterior de uma forma inédita, e começar várias amizades por conta do evento.

          PR: _Qual a sua formação e quais as dicas que você daria para quem quer se tornar um profissional da música?
          DP: _Sou graduado em Produção Fonográfica, com algumas pós em Direção de Arte, porém, acredito que a minha formação veio mais dos trabalhos pelos quais eu realizei, na prática mesmo. Então, acredito que minha melhor dica para alguém que quer se tornar uma profissional da música é estudar o legado dos artistas que ele admira. Aprender com quem já fez, no meu entendimento, é o caminho mais eficaz. Complementaria dizendo para estudar um pouco sobre futurismo, e criatividade.

          PR: _Ser guitarrista é apenas uma de suas atividades e seu trabalho como instrumentista pode ser verificado no seu álbum ‘BOO!!’. Como foi o processo pra compor, arranjar e gravar esse CD e quem participou do trabalho?

          DP: _Meu processo de composição e arranjo são bem peculiares, se comparado aos inúmeros métodos disponíveis por ai. Pretendo compartilhar tudo isso através de um curso online, pela complexidade dos detalhes e tal.. Quanto à gravação, posso dizer que foi bem intensa! Como muitos já sabem, meu pai faleceu um pouco antes deu entrar em estúdio, o que deixou tudo muito sensível e verdadeiro. Os músicos foram: Billy Sheehan (contrabaixo), Fábio Laguna (teclados), Mike Mangini (bateria) e Yaniel Matos (piano elétrico). Também contei com os trabalhos do Brendan Duffey, Ana Duffey e Adriano Daga (banda Malta). Apesar de todos serem grandes nomes em suas áreas, estavam todos animados e dedicados nos trabalhos, porque acreditavam que algo especial estava para sair dali. Já éramos todos amigos, então, foi mais uma reunião familiar do que uma fábrica enlatando ideias, haha.

          PR: _Sendo um profissional multimídia você já se acha tão seguro e preparado quanto suas referências em cada área, tendo que lidar com todo o processo produtivo e sendo tão jovem?
          DP: _Estudando os grandes feitos da humanidade, percebi que foram feitos por pessoas que falharam muito antes de conseguir algo relevante. Acredito que o quanto antes falharmos, mais rápido podemos chegar à soluções bacanas. Então, independente da idade, o caminho é sair fazendo. Apesar do mundo mudar muito rápido, podemos aprender com milhões de pessoas que estão tentando "coisas", através da internet. Se eu não sei algo sobre algum determinado assunto, eu vou pesquisar e já tentar aplicar. Como minha motivação nunca foi reproduzir o que já foi feito, valorizo mais o processo, pois só assim consigo inovar. Estou sempre preparado para aprender.

          PR: _Não sei se concorda comigo, mas o brasileiro, ou mesmo o latino em geral, quando se trata de música, por mais que ele queira interagir e compartilhar, acaba não conseguindo fazer as coisas fluírem com naturalidade ao ponto de darem frutos relevantes. Estudando produção musical, notei que a interação e o compartilhamento de ideias entre os profissionais gringos é muito grande e todos eles pregam essa ideia abertamente. Na sua opinião, o que é mais importante: o triunfo individual e a superação pelas próprias virtudes ou a colaboração de diversas pessoas construindo e promovendo o todo, abrindo mão do brilho individual?
          DP: _Se a questão é gerar frutos relevantes, eu preciso refletir sobre o significado da palavra "relevância", que entendo ser a qualidade que o público, ou públicos, atribuem a determinada coisa. E isso é bastante variável, pois pode ser que o que é relevante para você não seja para mim, e vice-versa. Outras variáveis que também afetam a relevância são: o tempo (nem tudo que é relevante hoje o será amanhã), o espaço (algo pode ser relevante em um lugar e em outro não) e a individualidade (existem coisas que são relevantes para determinado público, faixa etária, etc.). A relevância, então, é de domínio do público, podemos assim dizer. Existe um proverbio africano (se não me engano), mais ou menos assim: "Se quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá em grupo". Algumas horas eu dou mais importância para as ações individuais, outras para a colaboração coletiva, depende do que quero fazer, e de onde pretendo chegar.
          PR: _Eu tenho 38 anos, sou assinante e colecionador de revistas de guitarra e baixo, cresci ouvindo discos de vinil e fitas cassete. Minhas bandas sempre tiveram estruturas precárias e tocar era cada vez um desafio grande e diferente. Hoje tenho um modesto home estúdio que me possibilita escrever minhas musicas, estudar e gravar com qualidade. Você, sendo fruto de um ambiente já com internet, tecnologias mais evoluídas e uma globalização de informações facilitada, tem um foco, uma paixão específica em trabalhar com musica? Como você acha que o cenário atual favoreceu o desenrolar de sua carreira até aqui?
          DP: _Não conheço uma pessoa sequer que gosta de apenas uma coisa na vida. Esta ideia oriunda da revolução industrial, onde pessoas são preparadas para um roteiro específico, já não faz mais sentido para mim. Eu gosto de muitas coisas, dentre elas a comunicação. E é engraçado quando eu falo isso, porque, a Arte é uma das últimas associações feitas ao descontruir o significado da comunicação. A música é um tipo de linguagem inserida nisso tudo. Sim, eu amo e me dedico à música, mas não vivo exclusivamente focado nela. Somente este cenário multimodal, pós digital, me permite fazer o que eu venho fazendo. As dez mil horas sugeridas pelo Malcolm Gladwell, no livro "Fora de Série (Outliers)", hoje em dia, já está muito mais ligada a algo subjetivo, do que uma lei exata. Eu foco no que eu sou apaixonado e no que preciso saber para tornar as ideias em realidade. Acabo usando a tecnologia para otimizar o meu tempo, e divulgar minhas paixões.

          PR: _Estamos passando por alguns fenômenos interessantes. Kiko Loureiro tocando no Megadeth, Aquiles Priester tocando com bandas estrangeiras, o seu sucesso fora do Brasil e mais uma quantidade significativa de artistas brasileiros mantendo carreiras exitosas fora das fronteiras tupiniquins. Você acredita que isso ainda vai influenciar o brasileiro culturalmente, ou não é o suficiente para promover música de qualidade aceitável, ao invés de artistas descartáveis? Você acha que o que está na mídia é o reflexo da queda intelectual e cultural do brasileiro em geral, que a cada dia se torna mais consumista de futilidades? Gostaria muito de sua opinião honesta a respeito, pois o esforço em mudar isso é a base de todo o meu trabalho, o resultado cultural e social da música.
          DP: _Os termos "artistas descartáveis" e "qualidade aceitável", dariam belos (e longos) estudos de etnomusicologia. Não vejo os "artistas descartáveis" como link direto à "qualidade inaceitável", então, o que eu poderia aqui comentar é: na medida que os anos vão passando, os interesses e algumas necessidades humanas vão mudando. Eu acredito que o fato de termos mais artistas brasileiros (independente do gênero musical) tocando no exterior fomenta o interesse dos próprios brasileiros em conhecer a arte (e qualidades) deles sim, agora, uma cultura de empatia nacional depende de muitos fatores para ser transformada. Gostar de futilidades, ou do que muitos chamam de "musica ruim", não importa muito, se o objetivo final das pessoas é ser feliz. Eu entendo a necessidade de rotular as coisas, justamente por conta da herança da era industrial, agora, para mim, não faz sentido julgar o intelecto de alguém porque consome músicas com melodias repetitivas, arranjos simples ou outro parâmetro qualquer. Eu sou amigo dos artistas que você citou, e posso te garantir que eles escutam musicas que muitos seguidores deles desaprovariam, ou ficariam indignados, etc. Hoje, as pessoas ainda tem a necessidade de fazer parte de um grupo, para não se sentirem sozinhos. Agora, quanto mais conhecimento uma pessoa tem, mais ela sente a necessidade de evoluir, e procurar uma nova turma. Eu acredito que conviver com diferentes grupos (grandes ou pequenos), faz com que aprendamos muitas coisas. Na comunicação, entende-se que: para persuadir muitas pessoas, é preciso criar empatia; E um dos caminhos mais produtivos é falar a mesma língua delas. O ato de aprender não deveria ser algo chato, então, se o conhecimento é a base da evolução, quem ensina tem que abrir um dialogo estimulante. Eu, particularmente, gostaria de ver mais pessoas com esta pegada. Ia ser legal ouvir Jeff Beck em um churrasco de faculdade, bem como ouvir Justin Bieber em um congresso de semiótica.

          PR: _Você tem colaborado bastante com suas opiniões e dicas baseadas na sua experiência em vários espaços. Que canais são esses? Onde o pessoal pode ter acesso a isso? Você pretende desenvolver um material didático próprio para compartilhar suas ideias e técnicas?
          DP: _Realmente. Puxa, são muitos canais! Estou me divertindo bastante, e aprendendo muito com isso. Aliás, por serem muitos canais, eu decidi criar uma newsletter, onde mando os principais conteúdos gratuitamente por lá. Para se cadastrar, basta clicar no link: http://eepurl.com/0G6_T.
Alguns assuntos como Criatividade e minha forma de compor/arranjar são pedidos muito frequentes nas minhas redes sociais, então, decidi juntar tudo em um curso online. Estou na fase de estruturação, porém, muito em breve vou anunciar a data do lançamento. Já adianto que serão vagas limitadas, então, darei prioridade para quem estiver na minha newsletter (e-mail VIP).


          PR: _Qual seu setup de guitarra atualmente? É aquilo que você sempre desejou ou tem alguma coisa que te faça desejar algo diferente? Fale das marcas que é endorse e como elas tem ajudado na sua profissão?

          DP: _Meu set é praticamente baseado nos produtos das marcas que me patrocinam: Gibson guitars, Orange Amps, Ernie Ball, Monster Cable, Zoom, Capcases hardcases e Music Maker (luthier). Falando especificamente de alguns dos modelos: Minha guitarra principal é uma Gibson Custom Alex Lifeson Les Paul Axcess e Amplificador Orange Rockerverb 100 com gabinete PPC 412, Ernie Ball 0.11 (modelos Coated e Slinky). As vezes eu uso uma G-System da TC Electronic, um Tube Screamer e um DS1, mas, prefiro não usar muitos efeitos ao vivo. Agora, no estúdio, já abuso dos plug-ins.. E a lista é enorme, haha! Todos os equipamentos que tenho, uso e/ou assino, são os que eu realmente usaria fora de acordos de endorsement. Mesmo porque eu ajudo a desenvolver alguns deles, melhorando detalhes e evoluindo sempre. Meu relacionamento com as marcas é mais voltado ao branding. Basicamente, eu tenho ideias loucas, e eles me ajudam (de formas diferentes entre eles) a torna-las realidade. Assim compartilho o que pode ser feito com os produtos deles, mostro o potencial máximo, etc. Como são ferramentas de alta qualidade, eu não acabo ficando mais livre para focar na criatividade.

          PR: _Pra encerrar, gostaria que deixasse um recado final, alguma sugestão, divulgar alguma coisa que não tenha sido abordada nas perguntas anteriores, qualquer coisa. O espaço é seu.
          DP: _Estou feliz em participar do seu blog, obrigado! Gostaria de compartilhar o link do meu novo single, SLINKY, que tive o prazer de trabalhar novamente com o Billy Sheehan e o queridíssimo Kiko Freitas: https://www.youtube.com/watch?v=ZLm80KQl8WI.
Também gostaria de reforçar o convite para fazer parte da minha newsletter (e-mail VIP). Clique no link http://eepurl.com/0G6_T para se cadastrar. Um grande abraço. #dominarmundo



 

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