quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Megadeth - Dystopia em Porto Alegre

         
          Esse é o segundo show do Megadeth que eu prestigio. O primeiro havia sido em 2010 na turnê comemorativa dos 20 anos do álbum Rust in Peace. A impressão que tive ao ver o Megadeth naquela oportunidade é que a banda já estava em uma curva descendente. Havia ido ao mesmo Pepsi On Stage, local do show, para assistir Helloween e Gamma Ray dois anos antes e vi duas bandas ultrapassadas e com muito pouco mais a oferecer ao público do que versões menos empolgantes de velhos clássicos e músicas novas descartáveis. Embora o Megadeth seja uma banda que casa mais com meu gosto particular do que as outras duas citadas, estava pessimista quanto ao show da banda em 2010. Na verdade o show não foi ruim. Embora Chris Broderick e Shawn Drover fossem bons músicos e estivessem entrosados, a banda parecia ter perdido um pouco do poder de fogo. No palco se via uma banda certinha, mas sem muita coisa a mais a se dizer. O som estava mais ou menos, as músicas são excelentes, mas faltava algo. Longe de ser decepcionante, porém, empolgante também não foi. Quem viu a banda em 2013 abrindo para o Black Sabbath também teve essa impressão, ao menos foi o que me relataram. A banda parecia soterrada pelos longos anos de excessos de seu líder que tentava se manter vivo com dignidade em meio a uma existência claudicante. Muitos podem até discordar radicalmente dessa opinião, porém também adoro a banda e essa foi a minha impressão em in loco. 
          Algumas coisas aconteceram nos seis anos de intervalo entre os dois shows. O Megadeth lançou mais dois álbuns de estúdio com a mesma formação de Endgame, TH1RT3EN de 2011 e Super Collider de 2013. Nesse meio tempo a banda fez uma turnê de 20 anos do álbum Countdown to Extinction. Será que o Megadeth estaria ainda mais desgastado em 2016? Duas coisas tem que ser levadas em conta nessa projeção. A banda grava mais um álbum, Dystopia, e muda a formação, Kiko Loureiro assume as guitarras (já falei disso aqui) e o baterista do Lamb of God, Chris Adler, grava a bateria. Muito se especulou sobre como seria um músico brasileiro tocando no Megadeth, desde a bizarra história de Pepeu Gomes nos anos 80. Seria a pá de cau na carreira do Megadeth? Até que ponto Dystopia seria influenciado pelo brasileiro? Essas questões com certeza geraram diversos comentários. No que o Megadeth teria se tornado agora? Dave Mustaine com aparência cansada e um pouco resignado tecia elogios aos novos parceiros, principalmente ao brasileiro, mas o que se via nas redes sociais e canais oficiais da banda era um Mustaine tirando forças não sei de onde para gravar o disco.
          Algumas certezas podia se ter. Mustaine com certeza é responsável por mais de 90% de tudo que o Megadeth faz, portanto, a mudança de formação pouco influenciaria na sonoridade do novo trabalho. Outro ponto a ser considerado é que Chris Adler é um baterista experiente, moderno e qualificado para o posto, não estaria ai o furo da banda. Segundo consta, as músicas já estavam praticamente prontas quando Kiko entrou na banda, então, pouca diferença poderia fazer. O que levaria Dystopia a ser diferente dos álbuns anteriores? Poderia se esperar mais um trabalho como os três anteriores ou um pouco melhor como The System Has failed ou United Abominations? Essa era a medida do trabalho de Mustaine desde o inicio dos anos 2000. Mas o Megadeth chega ao 15° trabalho de estúdio e seu líder continua furioso, mesmo tendo envelhecido e se convertido uma religião. Então Dystopia teria alguma coisa a contribuir para a carreira do Megadeth?
          Singles são lançados e o álbum vai para as lojas. Os clipes de The Treat is Real e da faixa titulo são violentos e caóticos como as próprias letras das músicas sugerem (eles podem ser conferidos aqui e aqui. Não ouvi tantas vezes o cd como ouvi outros, mas já adianto que me empolga mais que Endgame, TH1RT3EN e Super Collider. Também achei que em United Abominations e The System Has Failed não tem uma música como Dystopia. Acho melhor que Risk, que pra mim é o pior álbum da banda, igual ou até superior ao Cryptic Writings ou até mesmo Youthanasia, que na época de seu lançamento pouco empolgou, mesmo tendo A Tout Le Monde, Train of Consequences e Reckoning Day como músicas ótimas, assim como o anterior que abria com Trust e tinha She-Wolf, tocadas pela banda ao vivo até hoje. É bem difícil posicionar um novo álbum dentro de uma discografia tão volumosa e digna como a do Megadeth, pois o que pode parecer interessante no contexto de hoje pode soar deslocado amanhã e vice e versa. Contudo tirar uma hora pra ouvir esse novo trabalho tem suas recompensas. Não vou perder meu tempo analisando faixa por faixa de Dystopia, pois isso por si só já tiraria um pouco do charme do trabalho.
          Então vamos ao show do Megadeth de 16 de agosto de 2016 em Porto Alegre. Particularmente eu achei ótimo. O som estava com a potência que um Thrash Metal dos anos 1980 deve ter pra soar bem. Dave Mustaine passou mais a imagem dos anos 90 do que a que estava costumado a mostrar ultimamente. O baterista que substituiu Chris Adler, Dirk Verbeuren ex-Soilwork, é preciso e tem uma pegada muito firme e constante. Junto com David Ellefson formam um cozinha pesada e confiável. Kiko Loureiro sempre foi um guitarrista esforçado e dedicado, essas virtudes fizeram dele um músico preciso, virtuoso e com uma identidade que agregou muito ao Megadeth. Fora sua contribuição musical, sua energia no palco contagiou os outros dois Daves que constantemente se deparavam com o guitarrista correndo pelo palco, trocando de posição enquanto reproduzia os solos de Chris Poland e Marty Friedman com uma fidelidade que nem os próprios músicos que gravaram-nos conseguiriam ao vivo hoje em dia.
          Dave Mustaine não é uma pessoa muito comunicativa quando está no palco, se apega a gestos e poucas palavras. Porém a platéia reconhece sua importância para o Thrash Metal e para a vida de cada um que estava presente ali porque admira a banda e saudava sempre que era propicio com gritos de "Mustaine, Mustaine" ou o tradicional "Ole, ole, ole, ole, Mustaine, Mustaine". Com um setlist interessante, mesmo dando espaço para as músicas novas e deixando algumas mais interessantes de fora. É estranho como o Megadeth não consegue encaixar faixas de seus seis álbuns mais recentes nos seus shows. Claro que o público quer ouvir o material dos anos 1980 e 90 e a banda está divulgando um novo trabalho e precisa apresentá-lo, mas será que o próprio Mustaine não acha que haja canções a altura da banda nesse últimos trabalhos? É uma bela pergunta.
          Em termos visuais o Megadeth nunca teve tão efetivo, pois todo o palco está montado para que telões despejem imagens condizentes com o que está acontecendo musicalmente. As músicas The Treat is Real e Dystopia tiveram seus clipes exibidos com a banda tocando em cima das imagens, isso deu o clima ideal para que o trabalho fosse apresentado. A iluminação está bem presente e dentro do contexto. A banda conseguiu tirar um bom resultado dos recursos que o Pepsi On Stage disponibiliza. Todo o evento ocorreu sem atrasos ou problemas significativos. O que deve se destacar é o custo alto de bebidas e comida no local, mas isso já é uma constante. Quem comparece a um evento desses já deve estar preparado para enfrentar esse tipo de coisa, infelizmente. Eu ainda gosto de ir ao Pepsi On Stage, pois dificilmente se espera muito para entrar após a abertura da casa e o espaço é mais interessante. Depois de anos frequentando o Bar Opinião, começa-se a valorizar certas coisas.
Quando se assiste uma banda de renome como o Megadeth em turnê de um bom álbum, uma ideia vem a cabeça. Por quê muitas bandas não lançam álbuns de inéditas com mais frequência e fazem turnês para divulga-los? Acho que os motivos são muitos, mas quando se propõem a fazer isso, as coisas ficam bem interessantes. Uma ideia bacana seria vender o ingresso com o cd de brinde, afinal, cobra-se tão caro por ingressos que levar o álbum da banda de lambuja seria bem mais atraente. Por hora é isso. O fato de escrever bastante sobre o Megadeth comprova que a banda está bem presente na minha vida atualmente de forma positiva e isso é muito bom.
          Encerrando este texto, quero mencionar que Kiko Loureiro está mostrando que é um guitarrista tão bom ou até melhor que os outros que passaram pelo Megadeth. Dave Mustaine é um ícone e faz justiça a toda admiração que seus fãs tem por ele. Pode-se dizer que ele desapontou alguns ao se converter ao cristianismo e ter certas atitudes, mas a essência do Megadeth está revigorada e musicalmente a banda recuperou todo espaço que havia perdido a alguns anos atrás. Mais do Megadeth pode ser conferido aqui. Fotos de site Van do Halen.
#pauloramos #heavinna #heavymetal #megadeth #dystopiaworldtour

Postar um comentário