terça-feira, 20 de setembro de 2016

20 de setembro - O dia do Gaúcho

Como aurora precursora
Do farol da divindade
Foi no 20 de setembro
O precursor da liberdade
Mostremos valor constância
Nessa ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda terra
De modelo a toda terra
Sirvam nossas façanhas 
De modelo a toda terra
Mas não basta pra ser livre
Ser forte, aguerrido e bravo
Povo que não tem virtude
Acaba por ser escravo
Mostremos valor constância
Nessa ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda terra
De modelo a toda terra
Sirvam nossas façanhas 
De modelo a toda terra
          20 de setembro é considerado o "Dia do Gaúcho", onde se comemora o dia em que as tropas rebeldes invadiram e tomaram Porto Alegre durante a Revolução Farroupilha. Isso ocorreu em 1835, devido as reivindicações dos produtores de charque ao valor dos impostos cobrados na importação do charque estrangeiro. Mas não foi apenas isso que motivou os rebeldes a manter uma guerra civil contra o império que durou longos dez anos. Já havia chegado ao país diversas ideias iluministas e as teorias revolucionárias francesas, onde a posse da terra, a igualdade entre as pessoas perante a lei, a livre iniciativa e o direito a propriedade privada se tornaram as bandeiras defendidas nas revoltas contra os governos da época. O fato do Rio Grande do Sul ficar longe da sede imperialista e ter um grande potencial agrícola, possibilitou que essa fosse a maior rebelião regencial.
          Nesses dez anos foram travadas batalhas significativas, foi oferecido aos escravos a abolição da escravatura para que lutassem ao lado dos farroupilhas. Claro que o cerne dessa revolução era os estancieiros, que não passavam de uma elite escravocrata insatisfeita com a submissão a coroa e os interesses comerciais regionais. Possivelmente queriam o controle comercial e produtivo, visando se tornarem a aristocracia de um novo país, assim como ocorrera com a província Cisplatina que é o Uruguay de hoje. Ou seja, como todas as outras revoltas acontecidas no país no período da monarquia, as razões foram econômicas e políticas, aproveitando-se do recente rompimento com Portugal e a juventude do novo império independente. Entretanto, isso não tira o mérito das intenções farroupilhas, havia um senso comum que motivava a reação rebelde onde se destacavam Anitta e Giuseppe Garibaldi, entre tantos outros. Chegou-se a se proclamar uma república independente, como em toda guerra civil, mas isso não se confirmou na prática. Após dez anos foi assinado o Tratado do Poncho Verde, que no fim das contas agradou aos dois lados. Não teve todo o brilho que os apaixonados pregam, mas também não foi algo inútil como outras pessoas alegam, pois o império caiu anos depois dessas revoltas regionais, pelos motivos que as legitimaram.
          Os livros sérios de história podem explicar, e com maior riqueza de detalhes, muito melhor tudo que ocorreu entre 1835 e 1845 do que este mero resumo ilustrativo. Na verdade, mantive o foco nos aspectos mais políticos e sociais para servir de introdução ao que quero realmente expor aqui. Talvez, quem é de fora do estado gaúcho não entenda porque as torcidas dos times de futebol locais mais populares cantem o Hino Riograndense sobre a execução do Hino Nacional antes dos jogos. Muitos não entendem a pilcha (vestimenta tradicional do gaúcho) e os aspectos rústicos dos nossos galpões e utensílios que são mostrados em programas de televisão. Nossas botas são uma referência a lida no campo, onde elas protegiam do frio, dos animais peçonhentos e possibilitava todos os trabalhos nas plantações e nos banhados onde o gado era mantido. A bombacha é uma calça mais confortável para as longas cavalgadas e remete a nossas origens hispânicas. Nosso lenço no pescoço simboliza nosso compromisso politico e nosso poncho é a defesa do frio, num estado onde o inverno sempre foi rigoroso e o chimarrão é um grande aliado contra as intemperes contribuindo para a formação das rodas de bate-papo. A madeira rústica aos quais eram construídos os ranchos de forma robusta, era para garantir a estrutura contra a força do vento e a revolta de animais ou invasores. A imagem tradicional do gaúcho mostra um homem de aparência rude e simples, que vive do campo e não tem outro interesse a não ser defender sua terra e sua família e tirar da primeira sua sobrevivência e sua motivação para trabalhar e lutar pelos seus direitos legítimos.
          Entretanto, esses ideias farroupilhas e essa imagem gauderia estão sendo esquecidas pelo gaúcho aos poucos. Nossas terras estão sendo exploradas para exportar nossas riquezas e enriquecer grandes empresas, enquanto nosso povo é envenenado com o que é vendido nos hipermercados ou passa fome. Somos escravos da violência diária, onde a criminalidade é o único poder constituído e a certeza de que acontecerá algum crime bem próximo de onde estamos. Não podemos defender nossas terras e nem nossas famílias da forma como tudo está posto, sem armas ou um senso de união e coragem que garanta nossa segurança. Somos reféns de todo o caos que foi sendo implantado em nome da ganância e dos interesses obscuros de uns poucos, mas que vitimiza muitos diariamente. Seria um absurdo nesse momento defender nosso estado contra o restante do país, sendo que aqui estamos vivendo o mesmo caos na segurança, saúde e educação, ou seja, qualquer ideia separatista ou libertária parece um delírio absurdo, pois estaríamos entregando nosso estado ao crime, à barbárie. Políticos oportunistas tentam nos enrolar com discursos vazios, enquanto nosso estado fica a cada dia mais miserável, mesmo assim, ainda temos uma empáfia bairrista que não se justifica mais em nenhum aspecto, mas que é usada para justificar certo caráter honroso que não possuímos mais. O orgulho gaúcho é invocado só para servir de ferramenta para algum discurso revolucionário mesquinho e idiota.
          Não adianta fomentar a cultura gaúcha na semana farroupilha e fazer propaganda dos nossas riquezas pecuárias na Expointer, se estamos falidos em vários aspectos sociais e morais. Basta assistir os noticiários para ver o que realmente se tornou a rotina do gaúcho, o que é notícia no nosso estado passa longe do que nossa história representa. Então, é hora de olhar para o passado, e ao invés de ficar discutindo o que realmente aconteceu na primeira metade do século 19, buscar uma nova revolução comum a todos os povos do mundo, para que nossas façanhas sirvam de modelo a toda terra, como diz nosso hino. Precisamos virar nossas costas para esses políticos viciados e corruptos que sempre estiveram no poder e nunca fizeram o que prometeram. É o momento de culpar o poder executivo por todos os crimes que são cometidos no nosso estado e exigir indenizações e punições severas a estes administradores de discurso. Precisamos julgar e condenar nosso poder judiciário pelos criminosos que estão soltos e cometendo os mesmos crimes de sempre. Há de se cobrar e culpar o nosso poder legislativo pelas leis que possibilitam a corrupção e a impunidade. Sim, pôr governadores, prefeitos, deputados, vereadores e quem mais alegar nos representar e age de forma suja e incompetente, na cadeia e obrigá-los a nos devolver todos os impostos que pagamos com serviços de qualidade ou em espécie mesmo, tirando do salário deles, que é bem mais alto do que o salário pago a um trabalhador comum. Porém, não adianta querer fazer tudo isso se não mudarmos nosso jeito dependente e derrotista, que se deixa levar por qualquer discurso bonito. Há de se ter firmeza e opiniões claras, sem medo de ser politicamente incorreto, lutar por algo que realmente seja comum a todos e que é sonegado.
          Se a revolução farroupilha foi uma guerra contra o poder estabelecido, que explorava por meio de impostos os produtores e quem trabalhava para sustentar a economia do estado, quem comemora o 20 de setembro não pode externar um orgulho regionalista durante uma semana por ano e passar o resto do tempo implorando migalhas do estado. O governo do Rio Grande do Sul, não apenas o atual, mas todos, independente do partido politico, é o responsável pela crise na segurança, na saúde e na educação. São pessoas que em nenhum momento tiveram suas rotinas prejudicadas pelo caos que eles criaram. Eu conheço histórias de ex atletas, empresários, profissionais de várias áreas que faliram, mas não conheço nenhum politico que tenha passado por dificuldades financeiras. Mesmo esses nomes que são mostrados na imprensa como os grandes corruptos, que foram julgados e condenados, suas famílias continuam desfrutando de todo o luxo proporcionado pela corrupção. Você que está comemorando a semana farroupilha, mas depois estará nas ruas com bandeiras e espalhando o lixo eleitoral, você é cúmplice de cada assassinato, assalto, negligencia hospitalar, greve e toda a corrupção que está matando nosso estado.Vote no seu candidato, se ele for eleito e tudo continuar, apresente-se a imprensa e a sua comunidade e assuma a sua culpa, pois tudo que está acontecendo com nosso estado é culpa dos políticos que você elegeu.
          Para finalizar este texto, volto a questão separatista que ainda reverbera em algumas estâncias de nosso Rio Grande. Não basta simplesmente negar nossa origem de brasileiro e criar uma história alternativa e tudo se resolverá. Não esqueçamos que o nosso Estado é o berço de políticos nefastos. Não esqueçamos de Lindolfo Collor, avô do nosso ex-presidente. De Getúlio Vargas, que mesmo tendo sua importância inegável para a política nacional, foi um estadista totalitário e apaixonado pelo poder, sendo um ditador típico, embora não fosse um assassino como outros. Leonel Brizola, que a muitos seduziu pelo discurso forte e populista, mas que nos bastidores conspirava para as ações comunistas que tinham a intenção de transformar a América Latina em uma nova União Soviética e que representou o Brasil na Internacional Comunista, ajudando a criar o Foro de São Paulo. Nosso amado ex-governador Olívio Dutra, que em 2001 recebeu representantes das FARC em visita oficial ao Estado. Sem contar muitos outros como Tarcísio Perondi, Eliseu Padilha, Pompeu de Matos, Antônio Britto, atuais e do passado, são tantos que nem vale a pena mencionar aqui. Ser gaúcho é antes de tudo ser brasileiro e negar isso é querer viver num mundo imaginário, que só existe na cabeça de quem não tem nenhum compromisso com nossa história e tradição.
Postar um comentário