sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Depressão

          Médicos falam que a depressão se dá pela ausência ou descontrole de algumas substancias (serotonina e noradrenalina, entre outras) no nosso organismo, mais precisamente em nossos neurotransmissores. Assim sendo, há de se fazer uso de medicação para equilibrar o sistema ou repondo artificialmente o que está ausente. Vendo por esse angulo clinico é até fácil diagnosticar e tratar a depressão, mas esse pensamento é um ledo engano. Não qualifico a depressão como sendo uma doença, e sim um estado físico e mental para o qual somos levados por alguma razão. Esse estado não é provisório como muitos podem pensar, e sim permanente. É uma linha de chegada que antecede a morte, mesmo que essa não se dê de imediato. Não há cura para depressão, há tratamentos que amenizam seus sintomas, que variam de pessoa para pessoa, mas uma volta ao estado anterior é impossível. Não podemos confundir depressão com tristeza ou frustração. Tristeza é um estado que se estende até certo ponto. Infelicidade é outro estado temporário, mesmo que demore uma vida para passar, ele ainda é reversível. Mas a depressão não. Essa morre com a gente, ou melhor, até pode nos matar. Não é raro encontrar depressivos ansiando pela morte, é até mais comum que aconteça exatamente isso, pois viver com depressão é como assistir um mundo sem cores, cheiros, sem graça. Se essa é a doença do século XX, como muitos chamam, eu já qualifico como sendo a realidade do século XX, já que mais e mais casos de depressão são diagnosticados a cada dia que passa. 
          Como eu sei de tudo isso? Simples. Eu fui diagnosticado com depressão em 2010. Os motivos? Não sei se precisava de apenas um motivo para isso, mas sei que foi nessa época que comecei a sentir os sintomas que me levaram a buscar ajuda médica. Não por estar triste em casa chorando e sem querer sair, mas por sintomas físicos e muito reais que passei a sentir e que acabaram crescendo de forma incontrolável. Em uma manhã acordei com dificuldades para respirar. Já tinha passado por isso, mas achava que era por fumar a quase vinte anos. Entretanto, dessa vez não pude me erguer da cama. Estava com os braços dormentes e algo me pressionava a garganta, fazendo com que o ar passasse com dificuldades e quando chegava aos pulmões não satisfazia a pleno a necessidade de oxigenação, Tinha algo muito mais pesado e mais forte do que eu me segurando na cama. A sensação de sufocamento e dormência generalizada impedia qualquer ação mais efetiva no intuito de me erguer. Estava deitado olhando para o teto sem poder pedir ajuda. Naquele momento um filme passou pela minha cabeça. Como podia um homem adulto e aparentemente com boa saúde, pois na época ainda praticava esportes regularmente, acabar imóvel sobre uma cama numa bela manhã de primavera? Mas foi exatamente isso que aconteceu. Não conseguia raciocinar, apenas tentava respirar de forma perturbada e agonizante.
          Após algumas horas de angústia e apatia, consegui reunir forças para chamar ajuda. Fui encaminhado para um hospital e quando fui atendido, falando dos sintomas, o médico simplesmente pegou uma receita e pediu para que eu me encaminhasse à sala ao lado para tomar a medicação. Nesse meio tempo explicou o que estava acontecendo para a minha mãe, que era quem me acompanhava. O que ele me receitou foi um calmante que me fez dormir por algumas horas. Quando acordei, estava com o corpo dolorido e com os movimentos pesados e lentos, porém já conseguia respirar com certa normalidade. Ao ficar de pé, ainda me sentia tonto e um pouco desnorteado, mas conseguia andar e me comunicar de forma razoável. Ai o médico me explicou que eu tinha acabado de ter uma crise de ansiedade devido à depressão e me encaminhou para um psiquiatra, pois meu problema não era nos pulmões ou qualquer outra coisa, era única e exclusivamente psicológico. Difícil para um cético igual a mim aceitar isso, contudo, tive que me render aos fatos e buscar um tratamento para aquilo.
          Lidar com psiquiatras é uma coisa estranha e até surreal. Normalmente são sujeitos simpáticos que lhe pedem para contar tudo, sem restrições e garantem sigilo absoluto. Acredito que psiquiatras e psicólogos buscam uma grande revelação para sair do marasmo. Possivelmente quando me viu o doutor achou que ouviria histórias de abusos com drogas, rituais insanos ou qualquer coisa do tipo, mas acho que frustrei suas expectativas. Enquanto você fala ele, o psiquiatra, fica rabiscando num papel e aparentemente achando tudo que você diz normal, mesmo que você diga que esquartejou um cachorro com um canivete sem fio e comeu seu coro com pelos e tudo. Depois ele te dá uma receita ou duas e dizem que um medicamento vai tirar a sensação de sufocamento e o outro fará você dormir a noite. Mas, quem está com depressão e passa por algumas crises de ansiedade, não confia em soluções tão fáceis. Na verdade, eu esperava que ele tirasse um revolver 38 da gaveta e me incentivasse a estourar os miolos ali mesmo. Confesso que essa vontade não saia da minha cabeça e em algumas ocasiões, se tivesse realmente uma arma a mão, não estaria escrevendo esse texto hoje.
          Um dos remédios que o doutor me receitou era para ser ingerido pela manhã. Com o tempo, notei que ele inseria certa alegria idiota em determinadas partes do dia. Como se eu bebesse uma cerveja e o álcool começasse a fazer efeito. Porém, rapidamente a sensação passava e pairava um vazio no ar, algo sem sentido, como se tudo que estivesse acontecendo ao redor não tivesse importância. Já o outro remédio me deixava com a fala enrolada e um cansaço físico desproporcional ás minhas atividades diárias. Começava uma frase qualquer e de repente nem sabia mais sobre o que eu estava falando, totalmente grogue. Quando deitava a noite para descansar, só acordava quando tinha que levantar para ir para o trabalho, sem sonhar e com a sensação que nem tinha dormido. Em determinadas ocasiões dormia mais de doze horas ininterruptamente. Tomei estes remédios por alguns meses, mas tive que desistir. Não passava de um zumbi que não conseguia sequer tocar uma de minhas músicas sem cometer erros bisonhos. Estava arruinado como musico e como pessoa. Decidi parar de tomar os remédios e me entregar à depressão com as armas que eu tinha, ou seja, estupidez e autossuficiência.
          Voltei a jogar futebol aos sábados, aumentei o ritmo dos meus estudos de produção musical, criei meu blog, comecei a sair nos finais de semana e ouvir muita música. Não importava o que eu fazia, quando tinha que ter uma crise isso acontecia de forma natural, independente do que estivesse fazendo ou onde eu estava. Porém, ficar em casa muito tempo me levava a ter diversos pensamentos autodestrutivos. Conseguia me distrair e fazer as coisas normalmente, mas não sentia as coisas da mesma forma que antes, tudo era superficial. Não importava se acontecia uma tragédia ou algo extremamente empolgante, nada me tirava daquele marasmo. Então entendi o que realmente estava acontecendo. Tinha chegado num ponto onde não há mais volta. As emoções pouco se alteram, não há uma dinâmica que faça o coração disparar ou as mãos suarem. Entretanto, quando aconteciam as crises, o desespero me tirava totalmente à razão. Meus sentidos mais básicos como a audição, a visão, assim como o equilíbrio e a sobriedade se transformavam em uma avalanche de sentimentos e reações biológicas descontroladas e imprevisíveis. Era impossível prever quando iria acontecer, pois não havia um gatilho para disparar isso que eu pudesse evitar.
          Quando disparava uma dessas crises de ansiedade, o que era aleatório, independente do que acontecia, eu sentia minhas vias aéreas se descontrolarem. Tinha que me concentrar na respiração, mas ela ficava incontrolável. Logo essa sensação de sufocamento desencadeava efeitos físicos como tontura, vistas escurecidas, não conseguia distinguir uma pessoa de um poste nas ruas, não conseguia andar em linha reta e meus membros, braços e pernas, adormeciam e passavam a ter vida própria. Pelo peito subia uma sensação equivalente a do choro misturada com aquele frio na barriga que dá quando algo muito triste ou assustador acontece. Isso é uma visita ao inferno e cada segundo demora uma eternidade pra passar. Tive ataques semelhantes aos da epilepsia, o corpo ficava febril e sentia ressaca após as crises. Depois de cada uma delas ficavam sequelas, como se não me recuperasse plenamente e não voltava ao estado anterior. Sentia-me ansiado por morrer, pois essas sensações nunca passavam, simplesmente não valia mais a pena ficar vivo para testemunhar as coisas piorarem ou buscar ajuda, já que ninguém parecia entender exatamente o que acontecia comigo, nem mesmo eu.
          Com esse turbilhão de sentimentos, simplesmente saia de casa mesmo sem vontade, buscava interagir com as pessoas fugindo de meus sentimentos, embora isso fosse impossível. Entrei numa banda e saia ensaiar e pra fazer shows, gravei demos, comprei equipamentos para me manter ocupado e estudando, fui idealizando meu estúdio, entrei em cursos de produção musical, saia a noite pra beber, encontrar os amigos e prestigiar bandas iniciantes tocando. Em nenhuma dessas atividades eu me isolava ou ficava pra baixo. Se estava entre meus amigos me sentia mais seguro, pois se acontecesse algo, alguém me acudiria, melhor do que agonizar até morrer sozinho em casa. Todo este sofrimento se estende até hoje. Como falei, não há cura para isso. Meus sentimentos não voltarão a ser como eram no passado. Não sentirei euforia nos momentos mais eletrizantes e nem tristeza nas piores situações. Há apenas um resquício de tudo aquilo que havia dentro de mim emocionalmente. 
          Parece fraqueza tudo isso, mas é simplesmente a verdade. O pouco de emoção que ainda tenho é direcionada a minha família, mulher e filhos. Todo o resto é irrelevante praticamente. Desde que meu avô morreu em 2010, após um período considerável de sofrimento, que não temo por receber a noticia da morte de ninguém além destes que falei. Saudade é apenas uma lembrança de uma ou outra pessoa que se perde rapidamente e eventualmente me vem à memória, sem muita relevância. Nada é forte o suficiente para fazer eu me programar para uma visita. Mesmo com tudo isso, sei que tenho que estar vivo e lúcido para cuidar de quem eu amo e dependem de mim. Esse compromisso é que faz com que eu levante pela manhã e tente fazer o melhor no meu trabalho, que me mantem compondo e estudando musica, gravando algumas coisas, lendo livros e ouvindo muita musica. Tudo precisa ser calculado conforme um padrão previamente estabelecido para que seja executado e quase nada é feito na emoção. Mesmo assim, muitas vezes não me animo a fazer muitas coisas como fazia antes, perco dias na apatia ou simplesmente fazendo coisas rotineiras em casa.
          Vou a alguns shows de bandas que gosto, escrevo para meu blog, interajo nas redes sociais, faço planos, alimento um personagem, mas dentro de mim há só escuridão, vontade de desistir por achar que a maioria das coisas não vale mais a pena. Consigo manter um padrão de existência aceitável por já ter atingido certa maturidade e eventualmente me descontrolo ao ponto de sentir raiva. Na verdade, o ódio é a única emoção que flui naturalmente e faz com que tenha reações espontâneas, de resto apenas me atenho às circunstancias e decido racionalmente como proceder de acordo com meu estilo de vida. Quando me divirto ou tenho momentos agradáveis, me satisfaz mais ver as pessoas alegres ao meu redor do que sentir alguma satisfação interna. Ainda sou capaz de amar, sentir raiva, ficar tenso e me alegrar, porém essas coisas não tem o efeito que tinham antigamente. A única presença constante é da escuridão, que me deparo quando olho para o futuro ou pra dentro de mim mesmo, e aquele desejo sutil de que tudo acabe de uma vez. As crises ainda existem, mas já não me pegam desprevenido, meu corpo já acostumou a conviver com o descontrole e o sufocamento, então consigo ignorar os efeitos até certo ponto, pois sei que não vou morrer e se isso vier a acontecer, a morte será bem-vinda. Mesmo sabendo que não posso simplesmente desistir e desamparar quem depende de mim, uma morte involuntária cairia bem, pois afastaria a sensação precoce de culpa. Afinal, para quem chegou a esse ponto, viver ou morrer passa a ser quase que uma condição insignificante. Mas, enquanto eu for funcional e conseguir atender as necessidades de quem eu zelo, ainda valerá a pena estender essa existência por mais algum tempo. 

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