terça-feira, 29 de novembro de 2016

Black Sabbath - O Fim


          28 de novembro de 2016 foi a data que o Black Sabbath escolheu para tocar em Porto Alegre em sua turnê de despedida. Foram 46 anos de carreira, muitos problemas com drogas, mudanças de formações, brigas entre integrantes e o derradeiro álbum 13. Quase com 70 anos, Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward são lendas do Rock. Se fisicamente Bill Ward não pode estar presente neste momento, Tony Iommi também poderia não estar, já que luta contra um câncer a quatro anos, mas sem ele não haveria Black Sabbath. Ozzy está debilitado e pouco se move de seu posto em frente a bateria, pois depende dos monitores para ler as letras e de seu fôlego para cantar durante os 95 minutos de show. Geezer Butler parece estar sadio e ainda guarda a agressividade de outros tempos em seus dedos ao tocar seu baixo. Tommy Clufetos foi o baterista da noite e tem sido assim desde a turnê de 13, mas não merece ser incluso nessa análise, pois sua carreira ainda está em ascensão. O fato é que a banda que termina essa brilhante carreira é muito diferente da que gravou o álbum de estréia, afinal, o Heavy Metal pode resistir ao tempo, mas os homens sofrem a ação dele. 
          Parece que faço uma dissertação depreciativa, falando apenas das características físicas dos integrantes da banda, mas minha intenção passa muito longe disto. Não quero me prender a lenda Black Sabbath e seus clássicos e mitos, quero homenagear os homens por trás da marca com este texto. Homens que trazem as cicatrizes de uma longa vida de trabalho duro e que deu frutos de valores inestimáveis. Ozzy ainda é o sujeito dislexo e desengonçado do início de carreira, que mesmo com problemas com drogas, incertezas e polêmico, jamais esteve longe dos holofotes da fama. Ozzy permaneceu firme, mesmo sem o Black Sabbath. Sua carreira solo é muito bem sucedida e chegou a rivalizar com sua própria banda e até superá-la em alguns momentos. Este mesmo Ozzy é o responsável por encerrar a carreira da banda de forma digna. Ele que tantas vezes foi pivô de incertezas ao ponto de ser demitido e contar até com a resistência de Tony Iommi desde suas primeiras reuniões. Ozzy superou seus limites, e mesmo sendo o elo mais fraco dos garotos de Birmingham, deixou suas carreiras de ladrão, afinador de buzinas e abatedor de gado, para ser a maior estrela do Heavy Metal. Ele não precisa se mover, não precisa cantar e nem falar nada, para seus fãs basta ele estar ali para causar comoção.
          Tony Iommi é o líder do Black Sabbath e o principal compositor do grupo. Ele nunca deixou a banda. Ele é o criador do Heavy Metal. Declinou de tocar com o Jetro Tull, ícone do Rock dos anos 60 e 70, para extrapolar as fronteiras do Hard e dar ao mundo seu filho mais extremo até então. Nas guitarras de Tony Iommi saíram os primeiros riffs de Metal, mesmo que este seja canhoto e perdesse a ponta de dois dedos numa máquina industrial durante seu último dia de trabalho. Sem Tony, talvez os outros três jamais conseguiriam a notoriedade que tem hoje. Todos os fracassos da banda devem ser creditados na conta de Iommi assim como as virtudes, pois ele era o Black Sabbath. Sem Ozzy, Geezer e Bill, não haveria a química que marcou o grupo, mas possivelmente existiria um Black Sabbath de alguma forma, como nos anos 1980 e 1990. Se muitos guitarristas são heróis e inovaram com seus instrumentos, Tony Iommi criou um estilo, Tony Iommi é uma banda. Podem existir milhares de guitarristas de Rock e Metal melhores que ele tecnicamente, mas a musica deles não teria sentido algum sem os riffs inspirados por Black Sabbath.
          Geezer Butler era um guitarrista que se sujeitou a tocar baixo em prol de um objetivo do grupo. Nascia ali o baixo mais clássico e expressivo do Heavy Metal. Suas letras eram a ponte entre os vocais de Ozzy e as guitarras de Iommi, onde tudo ganhava sentido. Sua pegada e linguagem nos graves eram a conexão da bateria de Bill com os riffs de guitarra. Geezer nunca carregou o peso do Black Sabbath em suas costas e também nunca foi uma estrela como os dois colegas mais expressivos. Ele sempre foi o místico, o esquisito, o diferente e o mais estável de todos. Porém, nunca deixou de ser um deles. Também usou muitas drogas, também sofreu com os rumos de uma carreira de Rock Star, mas silenciosamente arrecadou para si uma legião silenciosa de fãs e admiradores. Talvez os tranquilo senhor Butler tenha vindo a mente, como inspiração e referencia, para cada baixista que se colocou ao lado de um guitarrista de Metal fazer bem seu trabalho.
          Bill Ward não estava lá. cada um tem sua versão, mas o fato é que desta vez ele não estava lá para a ultima jornada. Ele escapou da morte pelas mãos dos próprios colegas de banda, por ser um cara simples e se deixar levar pelas brincadeiras dos amigos. Possivelmente o tempo venceu o baterista de Metal, Bill Ward, mas não apagou o que ele fez em todos os clássicos da banda. Seu estilo jazzístico e livre deu flexibilidade ao duro monstro de Metal que o Black Sabbath se tornaria. Inventivo e surpreendente, teve que marcar seu lugar tendo como concorrentes John Bonham e Ian Paice, duas lendas das baquetas, e ele se saiu muito bem. A prova disso é que seus sucessores foram monstros como Cozy Powell e o próprio Clufetos, entre outros famosos bateristas de suas épocas.
          O que se viu no estacionamento da FIERGS foi um show denso e caprichado, calcado em cima dos primeiros álbuns da banda. Por segurança, a banda tem mantido o mesmo repertório em todos os shows e contando com efeitos visuais nos telões para realizar essa difícil tarefa de carregar o grandioso dinossauro de metal em sua ultima excursão pelo mundo. Claro que Sabbath Bloody Sabbath e Sympton of Universe fazem falta, assim como os clássicos com o Dio, mas mesmo assim o Black Sabbath continua pesado e majestoso. Um show correto e sem sobressaltos, mesmo com Ozzy entrando adiantado na música Children of the Grave e errando algumas letras. Se Iommi não é rápido e virtuoso como antes, seu timbre e seu senso de melodia ainda são os mesmos. 
O set list do show foi o seguinte:
Black Sabbath
Fairies Wear Boots
After Forever
Into the void
Snowblind
War Bigs
Behind the Wall of Sleep
N.I.B
Rat Salad/solo de bateria
Iron Man
Dirty Women
Children of the Grave
                                                                         Paranoid
          Este foi um evento histórico para os fãs de Metal do Rio Grande do Sul. Como acompanhamos um dos últimos shows de Lemmy com o Motorhead no Monsters of Rock de 2015, tivemos a última turnê dos pais do Heavy Metal passando por Porto Alegre. Fica a reflexão: Estes senhores estão chegando ao fim de suas vidas fazendo o que gostam e emocionando pessoas de todas as nacionalidades. E nós? O que estamos fazendo de nossas vidas? Estamos matando o tempo ou vivendo nossos sonhos? Imagino quantas vezes estes três senhores tenham olhado uns para os outros e comentado: "Olha! Ainda estamos aqui!". De jovens pobres de uma Birminghan pós segunda guerra para astros do Rock em sua turnê de despedida. Parabéns, senhores! Vocês foram os primeiros e sempre serão os únicos!
Postar um comentário