sábado, 11 de fevereiro de 2017

Como ser um Conservador


          Este livro foi escrito pelo inglês Roger Scruton, hoje Cavaleiro da Grande Cruz do Império Britânico, e é um importante relato de como um conservador vê o mundo atualmente. É interessante, para quem não conhece a obra de Scruton, que o livro inicia com uma mini auto-biografia e conta os fatos que o levaram a combater os movimentos de esquerda e os resultados da queda do socialismo na Europa. A partir de então, ele passa a analisar as frágeis democracias que nasceram após a queda da União Soviética e do muro de Berlim. A partir dessa breve narrativa, o livro é divido por capítulos abordando assuntos como capitalismo, liberalismo, internacionalismo, socialismo, entre outros, onde a visão do conservador é exposta de forma clara e objetiva. Isso propõe um debate bem producente para aqueles que buscam uma evolução do pensamento social. Claro que o termo "conservador" é visto como pejorativo e não interessará àqueles que se julgam os defensores da liberdade social e da democracia, como temos aos montes no Brasil. Mas para quem já está cansado do mesmo discurso politico dos últimos trinta anos, as obras de Roger Scruton são opções muito interessantes e informativas, que podem levar o individuo por outra vertente de pensamento, abrindo mais o horizonte ideológico. Por sorte, a Editora Record tem traduzido e publicado este tipo de literatura, como falei em postagens anteriores, e aos poucos está se formando um acervo bem eclético para a literatura conservadora e liberal em língua portuguesa.
          O que surpreende um desavisado, é o fato do livro não trazer muitas informações históricas ou técnicas ao debate, de forma erudita e exibicionista. Há citações de diversas obras, autores e fatos, mas aparecem como meras ilustrações para a obra, o que prevalece é a opinião direta do autor a partir das suas observações e experiências. Cita-las aqui pode deixar as coisas um pouco menos atraentes, mas elas passam a ideia honesta a qual o livro se propõe. A tradução de Bruno Garschagen pode ter contribuído para isso, porém, acredito que está bem fiel a ideia inicial do autor, pois ao assistir vídeos (aqui um deles) e ler entrevistas do próprio, ele se mostra bem direto e convicto em suas afirmações. Como conservador, as ideias propostas vão de encontro a liberdade individual do cidadão, a preservação da propriedade privada, a obediência ás leis e as tradições locais, a luta pela manutenção da família tradicional, o mérito como principio para o sucesso e o reconhecimento, a cultura adquirida e as instituições democráticas e sociais. Um duro ataque a tirania do fascismo e a dissimulação do socialismo que trouxeram grandes males á Europa do século XX.
          O fato de se assumir como um conservador, trouxe a Roger Scruton muitos problemas, mesmo num país como a Inglaterra. Mas seus posicionamentos vão além de politica. Ele defende a religião, a família e um Estado mais justo e imparcial. Isso não é novidade para os brasileiros, pois, passados os vinte anos de Ditadura Militar, ser conservador ou liberal no Brasil tornou-se quase que uma declaração de culpa pelo racismo, fascismo, machismo e imperialismo. Aquelas pessoas com ideias mais conservadoras passaram a se calar, os que continuaram a carregar a bandeira conservadora foram expulsos da mídia e calados pela opressão silenciosa do estabilishment. Cito aqui o jornalista e filósofo Olavo de Carvalho como principal exemplo. Sua cruzada contra o PT, Foro de São Paulo e assemelhados, jogaram-no em um esquecimento quase que definitivo. Porém, como aconteceu na Europa com a queda da URSS no inicio da década de 1990, a hegemonia esquerdista iniciada no governo de Fernando Henrique Cardoso e aperfeiçoada nos governos Lula e Dilma, começou a se rachar abrindo brechas que os liberais e conservadores tentam aproveitar de alguma forma.
          Fica a dica deste bom livro. Como falei a respeito de "Filosofia para corajosos" de Luiz Felipe Pondé, este livro não rompe paradigmas filosóficos ou marca uma guinada na história da humanidade, é um livro simples, de fácil leitura, mas que dá muitas dicas de pesquisa e aborda temas práticos com uma visão diferente da habitual, ou da que o brasileiro está acostumado. Para aqueles que não acreditam que, todo o caos vivido no Brasil com os escândalos de corrupção vindo a tona e atingindo políticos de todos os partidos, greves de setores fundamentais para a sociedade e a total destruição econômica de alguns estados, é mera coincidência, eis algumas teses que podem indicar onde estão as falhas e por que chegamos no ponto que chegamos. Não confio nos grupos e nas pessoas que tem se posicionado contra os governos e as ideologias que os norteiam, mas como estou podendo ver com mais clareza algumas coisas que até então pareciam muito obscuras, talvez outras pessoas se beneficiem desse conteúdo. Essa virada cultural me parece ser fogo de palha e durará pouco tempo, mas pode somar em alguma coisa para o futuro do Brasil deixando algumas sementes. Aqui você pode assistir a entrevista que o tradutor, Bruno Garschagen, fez com o autor do livro, Roger Scruton, falando exatamente sobre o conceito do livro.
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