sábado, 13 de maio de 2017

Deep Purple - A despedida

          Foi anunciado a algum tempo que o Deep Purple se despediria com o lançamento do álbum Infinite e uma longa turnê. Escrevi sobre a despedida do Black Sabbath, outro gigante inglês, e agora é hora de falar de um rival da época, digamos assim. Essas duas bandas, mais o Led Zeppelin, formaram um trio de ferro que sustenta, basicamente, tudo que veio depois em se tratando de Heavy Metal e Hard Rock. Se por um lado o Black Sabbath tinha um lado mais sombrio, o Deep Purple sempre foi mais focado em uma fusão entre Rock e música erudita. Tanto é notório este direcionamento, que a banda chegou a gravar com uma orquestra em alguns momentos, inclusive no início de carreira, lá em 1969. Todo este aparato jogava a banda para um estilo mais progressivo. Claro que no início, quando Richie Blackmore e Jon Lord formaram a banda, este conceito ainda não estava muito claro. O primeiro álbum da banda, ainda com Rod Evans nos vocais e Nick Simper no baixo e os três lançamentos posteriores, mostravam o Deep Purple como sendo um grupo ousado e com objetivos claros e grandiosos, mas ainda abaixo do que seus fundadores desejavam. Em 1968 a banda gravou dois álbuns, The Book of Taliesyn e Shades of Deep Purple. No ano seguinte foram mais dois lançamentos, Deep Purple e o álbum com a orquestra, Deep Purple & The Royal Philharmonic Orchestra, Malcoim Arnold - Concert for Group and orchestra.
          Em 1970, segundo Jon Lord, eles demitiram o baixista e o vocalista por estarem abaixo do que eles precisavam musicalmente. Chamaram Ian Gillan e Roger Glover. Com Ian Paice desde o inicio comandando as baquetas, se consolidaram como um dos maiores grupos de Rock de todos os tempos. O lançamento de Deep Purple in Rock foi o marco inicial dessa ascenção. Musicas como Speed King e Child in Time se tornaram clássicos definitivos. No ano seguinte veio Fireball, ótimo álbum, mas ainda claudicante perto do que aconteceria mais adiante. Nesse momento a banda se notabiliza por suas performances ao vivo, lembrando muito o Yes em seus tempos áureos, com longas improvisações e liberdade para experimentos. Fora isso, a banda mantém a caracteristica de seus registros ao vivo, pois algumas versões ficavam melhores no palco do que no estúdio. Em 1971 a banda lança Machine Head, sua obra prima, onde a maioria das músicas viraram clássicos. Smoke On the Water, Highway Star, Lazy e Space Truckin' são presença certa em quase todos os shows da banda. Logo na sequência a banda grava Made in Japan, ao vivo e um clássico também. Daí vieram até participações com Ike e Tina Turner, tal a dimensão que a banda alcançou.
          Porém, ao lançar o apenas correto Who Do We Think We Are em 1973, problemas dentro da banda já chegavam a atingir limites absurdos. Alguns egos inflados e falta de diálogo na tentativa de se chegar a um acordo fizeram com que Ian Gillan saísse em carreira solo e Roger Glover também deixasse a banda. Entretanto, o que poderia significar uma queda da banda e uma decadência de qualidade, foi desmentido em Burn. Com David Coverdale nos vocais, dividindo essa função com o baixista Glenn Hughes, saia mais uma obra prima definitiva. Isso duraria pouco, mesmo com o lançamento de Made in Europe, Richie Blackmore abandonou a banda por não gostar do direcionamento funk que os dois novos integrantes deram a banda no mediano Stormbringer. Tommy Bolin foi chamado para compor o grupo no lugar de Richie Blackmore, mas acabou tendo uma morte trágica que abalou o grupo. Até o início dos anos 1980 a banda sobreviveu com coletâneas, registros ao vivo, mas algo tinha se quebrado. David Coverdale não perdeu tempo e formou o Whitesnake, no mesmo estilo do Deep Purple em termos de estrutura, mas com um direcionamento mais bluseiro. Ian Paice, Jon Lord e Roger Glover chegaram a tocar na banda.
          Somente um 1984, com a volta de Ian Gillan, Roger Glover e Richie Blackmore, que a banda voltou a fazer algo relevante. Perfect Strangers foi uma retomada com certa dignidade ao que a banda tinha feito até metade dos anos 1970. Contudo, novos problemas entre Richie Blackmore e Ian Gillan fizeram com o vocalista saísse da banda. O marco deste momento está registrado no àlbum Slaves And Masters, com Joe Lynn Turner nos vocais. Após o fracasso do disco, Richie Blackmore sai da banda definitivamente. Em um momento posterior, Ian Gillan, Roger Glover, Ian Paice e Jon Lord chamam Steve Morse do Dixie Drags para assumir as guitarras. A banda seguiu gravando álbuns e fazendo turnês. No início da década de 2000 Jon Lord saiu da banda e deu lugar a Don Airey nos teclados. Jon morreu na metade de 2012 para a tristeza dos fãs, ex-colegas de banda e músicos de rock em geral. Uma perda irreparável, mas ele já havia deixado a banda quando ocorreu.
          Nessa longa tragetória o Deep Purple teve mais momentos dificeis do que uma estabilidade no topo como merecera. Porém, Ian Gillan chegou a ter uma carreira de sucesso fora da banda, chegando a gravar Born Again do Black Sabbath e vários álbuns solo. Jon Lord, Roger Glover e Ian Paice chegaram a gravar discos com seu ex vocalista, David Coverdale e seu Whitesnake, como falei anteriormente. Glenn Hughes formou diversas bandas, tendo cantado no Black Sabbath, tocou baixo e cantou no Trapezze, teve uma carreira solo produtiva e ainda está em atividade com o Black Country Communion. Richie Blackmore formou o Rainbow ainda nos anos 1970, onde contou com nomes de peso como Ronnie James Dio nos vocais e o baterista Cozy Powell. Depois dedicou-se ao seu Blackmore's Night com sua esposa para tocar musica folk. Este último, por mais que seja legítimo tocar o que lhe dá prazer, talvez tenha desistido de grandes bandas por ter que contar com grandes músicos para concretizar suas ideias, mas não conseguir dividir o estrelato com outras estrelas. É uma pena, pois Richie Blackmore é uma das lendas da guitarra e influência certa de muitos guitarristas.
          Agora o Deep Purple se despede como sendo uma das bandas essenciais do Rock e tendo influenciado milhares de bandas e músicos ao longo de todos estes anos. Confesso que, sendo um guitarrista, minha principal referência, ou busca, era misturar os riffs de Tony Iommi e os solos de Richie Blackmore. Isso seria a mistura perfeita para um guitarrista clássico de Metal. Essa fórmula também está presente na cabeça de gente como Yngwie Malmsteen, entre muitos outros guitarristas famosos. Cheguei a ver o Deep Purple no início dos anos 2000 e foi uma apresentação ótima. Claro que Steve Morse e Don Airey nunca conseguiriam substituir Richie Blackmore e Jon Lord, mesmo sendo ótimos instrumentistas, os outros dois são lendas, mesmo assim a banda mostrou ao vivo, durante todos estes anos, que poderia entregar um show recheado de clássicos, ótimas performances individuais e improvisos virtuosos. Claro que a voz de Ian Gillan já está comprometida e o baterista Ian Paice passou por sérios problemas de saúde recentemente, pois o tempo passa para todos nós. Contudo o Deep Purple mostrou sua importância e se despede de forma digna. Lançou recentemente o álbum Infinite. É um bom trabalho, digno, mas claro que não conta com toda a magia de antigamente. Existem bons momentos, tanto dos teclados de Don, como das guitarras de Morse, contudo fica aquém do grande Deep Purple, mas soa melhor que alguns outros de sua extensa discografia. Obrigado pela influência e pelos grandes clássicos que escreveram!
  

Postar um comentário