terça-feira, 9 de maio de 2017

Eu sou Ozzy

          Ler a biografia de uma pessoa famosa é uma tarefa que pode ser prazerosa ou totalmente descartável. No caso de alguns ídolos do Rock e Heavy Metal, essa tarefa pode ser ainda mais complexa, por vários motivos. Sempre achei pouco produtivo ler biografias, sempre interessei-me mais por literatura épica, filosófica ou cientifica. Histórias sobre meu ídolos da juventude eram coisa para revistas especializadas. Em um livro haverá sempre aquele aspecto artístico e manipulável. A veracidade dos fatos que sustentam a narrativa pode ser irrelevante, dependendo da intenção do autor e do biografado. O objetivo de uma biografia pode ser muito discutido, pois alguns escrevem a biografia de terceiros para assassinar a reputação, desmascarar um falso líder, prestar homenagens de forma desproporcional, etc. Claro que o mais relevante, ao menos para mim, é a música, pois sem ela o artista, no caso o músico, é irrelevante, mas  neste caso específico. Rock Stars, em sua maioria, são idiotas e sem muito a somar fora da arte que exercem. Seria o caso de Ozzy, se ele não fosse tão carismático e seu personagem não tenha extrapolado as fronteiras musicais, muito graças a sua esposa e empresária Sharon, mesmo assim, Ozzy Osbourne tem uma luz própria que transcende tais conjecturas.
          Aqui ficamos numa encruzilhada em nossa análise. Se Ozzy é apenas um idiota, teríamos muitos e muitos iguais a ele por ai. É nesse ponto que um potencial idiota sem futuro supera todas as probabilidades e se torna uma lenda. Ozzy não é rico e famoso por ser talentoso e prodigioso naquilo que faz, mas sim por ser único. Por mais que se estude e se esforce, o dom de ser único é uma dádiva, não um prêmio por esforço. Embora muita gente ligada a programação neurolinguística, a teses astrais e técnicas de aprimoramento pessoal e profissional, tentem definir critérios e fórmulas mirabolantes para tirar dinheiro de terceiros oferecendo algo "especial", Ozzy é um caso a parte, assim como muitos outros, dono de um dom natural para ser ele mesmo e nada além. Ler a biografia de Ozzy foi uma busca por conhecer os bastidores de histórias hilárias e outras muito bizarras, de quem percorreu uma grande jornada e ainda está de pé. Ozzy merece ter grande parte de seus álbuns, principalmente com o Black Sabbath, nas coleções de amantes de Rock e Metal de todas as gerações. Contudo, entender parte do processo que resultou nestes álbuns e formou a lenda que hoje se arrasta por palcos do mundo todo e ainda leva milhares de pessoas ao delírio, se torna algo indicado para aqueles que gostam de histórias inspiradoras.
          Um jovem disléxico que cresceu em uma cidade inglesa devastada após duas guerras mundiais, onde o sustento da casa só era possível graças ao trabalho do pai e da mãe em turnos opostos, revezando entre suas profissões mal remuneradas e a educação dos filhos. Um indivíduo que fracassou miseravelmente ao tentar entrar para o crime. Que viu na música a única opção para quem tentara ser afinador de buzinas e abatedor de gado em um frigorífico. Este Ozzy que saiu para sua primeira turnê descalço, com apenas uma calça, uma camiseta e com uma torneira pendurada no pescoço por não ter uma cruz para usar como adereço. Ozzy começou sua carreira de forma lenta e claudicante, mas atingiu o topo da história ao lançar seu primeiro álbum com o Black Sabbath em 13 de fevereiro de 1970. Daí em diante foram mais de meia dúzia com o Black Sabbath, mais uma dúzia solo. Recebeu prêmios, ganhou até uma série televisiva, resgatou sua antiga banda nos anos 2000 e deixou para trás muitas polêmicas e histórias inacreditáveis.
          Recomendo a biografia "Eu sou Ozzy", não só para os fãs de sua música, mas também para aqueles que ainda não entenderam que ele não é uma entidade demoníaca que todos pintaram ao longo de mais de meio século de carreira. Foi um pai e um marido problemático. Foi um amigo confuso e um ser humano sujeito a erros, excessos e tragédias, mas é o maior nome do Rock para muitos e um dos maiores para todos. A leitura é interessante, sendo que a história é narrada em primeira pessoa e foca mais nos bastidores de sua vida privada e não só nas histórias de turnês e gravações de álbuns. Muito além de uma obra para santificar ou demonizar uma lenda, apenas a narrativa aparentemente honesta de um personagem carismático e de um artista de sucesso incontestável. Li o livro ouvindo os discos e tudo fez muito sentido ao cruzar informações extraídas de matérias de revistas ao longo dos anos. Se este livro apresenta um texto 100% verídico, nesse caso é irrelevante, pois está na medida correta do que Ozzy é como pessoa e como lenda.
 

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